sexta-feira, 4 de maio de 2012

Tauromaquia é...

... a palavra utilizada para definir o conceito da chamada ´arte´ de lidar Touros. Deriva da palavra Grega  Tauromachia cujo significado é "combate com Touros"
Engloba todas as actividades que envolvam touros como corridas de touros, novilhadas, garraiadas, e a própria criação do gado nas ganadarias especializadas. Normalmente é conotada com aquele que é considerado o seu expoente máximo a Tourada.

Existem diversos tipos de Touradas, mudando a forma de lidar com o Touro e o seu destino final. No seu essencial a Tourada defende que a luta entre Touro e toureiro deve ser justa pairando no ar a dúvida sobre quem sairá vencedor.

Cada aficionado olha para a Tourada com um olhar próprio e particular. Aquilo que encanta a uns pode não ser o que suscita encantos a outros. Para alguns um Touro já não é considerado Natureza. É considerado cultura, resultado do apuramento refinado dos ganadeiros ao longo dos tempos. Um Touro nasce para a luta e para a dor num jogo de vida e morte com dimensão mágica. O Homem pode morrer, o Touro deve morrer. Ao arriscar a sua vida o toureiro ganha o direito de matar o Touro nesta cerimónia onde se transcende a morte.
A lide de um Touro dura tipicamente 20 minutos a meia hora sendo lidados vários Touros numa Tourada que dura perto de duas horas. Um Touro que demonstra a bravura excepcional e conquiste o respeito da arena terá a sua vida poupada, através de um indulto, retornando ao campo para viver livre o resto da sua vida e ser utilizado como macho semental / reprodutor para transmitir a sua bravura à descendência. No entanto mesmo quando indultados 80% dos Touros morrem no dia seguinte devido à gravidade das lesões sofridas.
Quando não existe este indulto o fim da Tourada resulta em morte. Seja por uma estocada certeira ao coração, seja por várias estocadas falhadas, seja por recolhimento aos curros onde é assolado por febres devido aos ferimentos, e perda massiva de sangue, podendo ou não chegar vivo ao matadouro onde seguirá para ser transformado em carne de consumo.

Utensílios de Toureio

BandarilhasÀ esquerda podemos ver o uma iliustração dos utensílios mais comuns utilizados nas touradas.
1. Espadas - aplicadas para a morte do Touro.
2. Bandarilhas - são cravadas no lombo do Touro a cavalo ou a pé.
3. Descabello Touros de 2 Canais - utilizada para estocar a nuca do Touro quando este agoniza por não morrer com o golpe de espada.
4. Espada Fusta.
5. Puntilha - tem a mesma função de 3) mas em forma de punhal.

As bandarilhas devem medir 70 cm de comprimento, ser enfeitadas com papel de seda multi-color e rematadas com um ferro de 8 cm, com um arpão de 4 cm de comprimento e 20 mm (2 cm) de largura;
As farpas ou ou ferros compridos e os ferros curtos devem medir, respectivamente, 140 cm e 80 cm de comprimento, com ferragem idêntica à da bandarilha, mas com dois arpões, e ser enfeitados e arrematados da mesma forma que as bandarilhas.
As bandarilhas a duas mãos pelos cavaleiros devem medir 90 cm de comprimento.
Os ferros compridos devem partir de modo a que 35 cm fiquem na rês e o restante na mão do cavaleiro.

Dados Estatísticos

  • 68 Praças de Touros em Portugal
  • 91 Ganadarias em Portugal
2009 - dados estatísticos emitidos pelo INE
  • 131 Touradas
  • 265 275 Espectadores assistiram às Touradas.
  • 172 042 Bilhetes Comprados
  • 93 233 Bilhetes Oferecidos
  • 3 914 917 € de receita (perto de 4 milhões de euros)
  • 22,8 € foi o preço médio de bilhete 
  • 3% do Total de Espectadores e 6% do Total de Receitas é o peso das Touradas relativamente às ocorrências e assistências em todos os espectáculos ao vivo.
2010 - comunicado emitido pela Associação Nacional de Toureiros
  • 304 Espectáculos Tauromáquicos dos quais 183 foram Touradas
  • 15 Delegados Técnicos Tauromáquicos em actividade
  • 57 Cavaleiros em actividade
  • 2 Matadores em actividade
  • 11 Novilheiros em actividade
  • 81 Bandarilheiros em actividade
  • 5 Moços de Espada em actividade
  • 25 Emboladores em actividade
  • 109 Empresas envolvidas na actividade
  • 48 Grupos de Forcados em actividade

Opinião Pública

Em Portugal existem actualmente sentimentos muito antagónicos em relação à tourada. Isso é expresso nas sondagens e adesão a grupos e petições lançadas em redes sociais.
Maio de 2007 - Estudo sobre Direitos e Protecção dos Animais financiado pela Associação ANIMAL ao CIES do ISCTE
  • 50.5 % dos Portugueses defendem a proibição da tourada
  • 39.5 % Opõem-se a essa proibição
  • 10.0 % Não têm opinião formada
Março de 2011 - Sondagem encomendada pela Federação Pró-Toiro à Eurosondagem
  • 32,7 % dos Portugueses apreciam as actividades com Touros
  • 20,6 % São indiferentes à existência ou não destas actividades
  • 32,8 % Não apreciam as actividades mas não concordam com a sua abolição
  • 11,0 % São contra este tipo de actividades
Ou seja 86,1% dos Portugueses tolera a existência das actividades com Touros. De entre estes:
  • 57,9 % Já assistiu a touradas ao vivo
  • 76,6 % Já assistiu a touradas na TV
  • 61,6 % Não sente necessidade de assistir a mais touradas na TV
  • 59,0 % Sentem que a tourada contribui de forma positiva para a imagem de Portugal no exterior
  • 3,9 % Sentem que a tourada contribui de forma negativa para a imagem de Portugal no exterior
  • 65,3 % Julgam ser grave para a identidade cultural de Portugal o desaparecimento da actividade taurina
 Redes Sociais
  • Mais de 190 000 fãs de páginas anti-tourada no Facebook
  • Mais de 50 000 assinantes da petição "Pela Abolição da Touradas e Todos os Espectáculos com Touros" 
  • Mais de 75 000 fãs de páginas pró-tourada no Facebook
  • Mais de 18 000 assinantes da petição "Em Defesa da Festa Brava" 


Estranhamente existem mais pessoas a aderir a movimentos online anti-tourada mas depois isso não se reflecte nas petições onde é clara a vantagem dos movimentos pró-tourada.


Financiamento

 A indústria taurina orgulha-se de afirmar que é auto-sustentável não necessitando de apoios do estado. No entanto, como indicado nas estatísticas do INE para 2009, existiram quase 93 233 bilhetes que não foram colocados a venda ao público. Representam 35% dos lugares disponíveis. Como justificar estes números? Talvez o apoio de mais de 1 Milhão de Euros dado pelas autarquias a esta indústria possa justificá-los. Com umas rápidas pesquisas na Internet rapidamente se chegam a dados como os seguintes emitidos pelas próprias câmaras que a isso são obrigadas:
Seria interessante também saber quanto custam à RTP as transmissões de corridas de touros já que mais uma vez falamos de dinheiro dos contribuintes a ser gasto para financiar esta indústria.

Legislação

Portugal tem em vigor leis de protecção aos animais (Lei 92/95) onde entre outras coisas definem o seguinte
"
  1. São proibidas todas as violências injustificadas contra animais, considerando-se como tais os actos conscientes em, sem necessidade, se infligir a morte, o sofrimento cruel e prolongado ou graves lesões a um animal.
  2. Os animais doentes, feridos ou em perigo devem, na medida do possível, ser socorridos.
  3. São também proibidos os actos consistentes em
              a) Exigir a um animal. em casos que não sejam de emergência, esforços ou actuações que, em virtude das suas condição, ele seja obviamente incapaz de realizar ou que estejam obviamente além das suas possibilidades;
              b) Utilizar chicotes com nós, aguilhões com mais de 5 mm, ou outros instrumentos perfurantes, na condução de animais, com excepção dos usados na arte equestre e nas touradas autorizadas por lei;
"
Existe um extenso regulamento do espectáculo tauromáquico disponível no site da Inspecção Geral das Actividades Culturais  que aborda vários aspectos relacionados com a logística, os intervenientes, os utensilios, os espaços e os critérios de escolha e condicionamento das reses.
Os Touros de morte eram proibidos em Portugal até que em 2002 foi criado o regime de excepção que permitiu a legalização das touradas de morte em locais onde fosse provado que era uma tradição vincada.[1]
Desde 2008 foi decretado pelo Tribunal de Lisboa que as corridas de touros não podem ser passadas na TV antes das 22h30m por considerar que é susceptível de influir negativamente na formação da personalidade de crianças e adolescentes, e passa a ser obrigatório a sinalização contínua de que as imagens podem ferir susceptibilidades.

Proibir as Touradas

Apesar de não existir uma tendência clara na opinião pública vários municipios declararam já a proibição da execução de touradas nos seus concelhos. Juntaram-se assim às mais de 70 Cidades espanholas que caminharam no mesmo sentido rompendo com a tradição cultural vingente. As pioneiras em Portugal até ao momento são:
  • Braga
  • Cascais
  • Sintra
  • Viana do Castelo

[1]
Depois da notoriedade pública que adquiriu o caso da organização ilegal de touradas com touros de morte em Barrancos, como parte das festividades populares locais, a Lei n.º 19/2002 de 31 de Julho revogou o Decreto n.º 15355, de 14 de Abril de 1928 e concedeu autorização excepcional para a realização de espectáculos com touros de morte «no caso em que sejam de atender tradições locais que se tenham mantido de forma ininterrupta, pelo menos, nos 50 anos anteriores à entrada em vigor do presente diploma, como expressão de cultura popular, nos dias em que o evento histórico se realize».

O Touro e o Homem ao Longo dos Tempos

O Touro representa desde sempre a força e virilidade, duas qualidades fundamentais do ideal masculino. Ao longo da história foi sacralizado e endemoninhado representado para o Homem a encarnação ou manifestação de características sobrenaturais e transcendentes.


Pré-História
Pintura nas Cavernas em Lascaux, França
Existem pinturas do Paleolítico que representam explicitamente os Aurochs, antepassados dos actuais Touros. Algumas das pinturas ilustram colhidas mortais com figuras humanas tombadas sob um Auroch.

É inegável o fascínio do Homem para com o Touro desde os primórdios da nossa civilização. Talvez isto se deva ao facto de serem abundantes nos prados e era frequente o contacto e a observação mútua. Especula-se que os machos Auroch eram significativamente mais agressivos que os actuais Touros e eram alvo de caçadas nas quais muitas vezes existiam ´danos colaterais´ para os humanos o que cultivou o respeito pela sua bravura e potência na defesa da sua vida e dos seus.

A sua domesticação deu início à criação das subespécies de gado doméstico que hoje abundam no planeta.


Grécia Antiga
Fresco de Cnossos na Grécia 
Minóica
De 2 000 a 1 425 AC surge a idade de ouro da arte Taurina.

O culto do Touro prevalecia na vida da Grécia Minóica. O Rei / Governante, designado por Minos, era o sacerdote do culto do Sol que venerava Cnossos. Uma das entidades divinas adoradas era o Minotauro para o qual construiram o famoso Labirinto de Creta.

Um dos rituais fundamentais era o sacrifício de jovens rapazes, oriundos de antigas aldeias da península Helénica, ao Touro Sagrado que representava a entidade Minotauro. Estas vítimas inocentes tinham a possibilidade de salvar a sua vida se conseguissem, por mestria, agilidade, sorte e capacidade próprias, evitar as investidas de um Touro durante tempo suficiente para serem poupados.

Naturalmente isso raramente acontecia.

Os sacerdotes do Minotauro, que o Touro Sagrado não atacava por com eles conviver desde tenra idade, executavam acrobacias sobre o seu corpo, lançando-se e apoiando-se sobre os seus cornos. No final da cerimónia o Touro era sacrificado e o seu sangue, considerado altamente fecundo, era espalhado sobre os campos como fertilizante.

Suspeita-se também que a lenda do Unicórnio tenha surgido na Grécia através da observação de Touros pois de perfil aparenta ter um único corno.


Império Romano
Touro nos sanguinários espectáculos dos 
Coliseus Romanos
Os Aurochs eram utilizados nos ´espectáculos´ nos Coliseus Romanos que duraram até ao século IV.


Júlio César ficou fascinado com os Aurochs descrevendo-os da seguinte forma "... os animais que são chamados Uri. Estes são um pouco inferiores ao elefante em tamanho e têm a aparência, cor e forma de um Touro. A sua força e velocidade são extraordinárias;.. não poupam nem homem nem besta selvagem que possam ter avistado. Os alemães conduzem-nos a grande custo em covas para matá-los. Os jovens fortalecem-se com este exercício, e praticam este tipo de caça, e aqueles que mataram o maior número deles, apresentando os chifres em público, para servir como prova, recebem um grande elogio. Mas nem mesmo quando tomados muito jovens podem estes animais ​​familiarizar-se para com os homens e serem domados. O tamanho, forma e aparência dos seus cornos, difere muito da dos cornos de nossos bois. Estes são muito procurados, e cobertas as suas pontas de prata, e usados como copos ornamentais ..."

Os Romanos praticavam também uma religião a que chamavam os Mistérios de Mithra, oriunda da pérsia antiga. Mithra representa o Deus da Luz que perseguiu, dominou e matou o Touro divino cuja morte era necessária para a renovação do mundo.


Idade Média

Na idade média existe registo de actividade tauromáquica regular pelo menos desde o século XI na Andaluzia.

Existe uma disputa relativamente aos criadores das corridas de Touros que estão na génese das lides actuais. Cristãos ou Mouros ambos praticavam a tauromaquia.

Depois da queda do Império Romano os seus anfi-teatros ficaram ao abandono e em ruínas tendo sido reaproveitados para a realização de Touradas.

Apesar de por natureza ser um espectáculo popular apresenta-se e afirma-se como um ritual marcadamente aristocrático. Por esta altura o Touro já tinha passado de representação de divindade venerada a representação de entidades demoníacas merecedora da violência da lide. Para os pagãos o touro era uma entidade divina, para os cristãos uma entidade demoníaca. Na península Ibérica a invasão moura foi determinante para acabar com a luta pagã e cristã culminando num reforço da Tauromaquia que tanto apreciavam.


Idade Moderna

A Tauromaquia passa a ser fortemente representada na arte, sobretudo na pintura.

A primeira corrida real em Madrid ocorre em 1502.
A Plaza Mayor, com capacidade para 50 000 espectadores, foi construída em Madrid em 1617.

Os Cavalos assumem grande protagonismo. O toureiro toureava a Cavalo, muitas vezes até que este fosse morto, após o que continuavam a lide a pé sendo suportados por dezenas de homens ao seu dispôr. Os Cavalos são quase considerados carne para canhão. Naturalmente um Cavalo nunca confrontaria um Touro, fá-lo porque são treinados para temer mais a desobediência ao cavaleiro do que a confrontação do Touro.

Em 1725 começa a afirmar-se em Espanha a personagem do matador a pé. Fruto sobretudo da falta de cavalos provocada pela guerra da Sucessão Espanhola de 1701-1714.


A partir de 1740 "La Fiesta" assume uma faceta artística que alarga a sua aceitação a todas as classes sociais.

A partir da 2ª metade do século XIX as técnicas fotográficas revolucionam a reprodução impressa e os esquemas tradicionais. Do ponto de vista plástico a visão humanista da Tauromaquia é substituida pela visão objectiva. O romantismo dá lugar ao realismo e impressionismo.



Portugal (maior detalhe)

Os Touros bravos, que por cá abundavam, eram usados no treino dos senhores feudais e das suas montadas. A tauromaquia era praticada por realeza e nobreza a cavalo, acompanhada da sua criadagem, que era seguida pelo povo a pé.


1516-1746 
Ocorrem mudanças em Espanha, começando por D. Carlos IV, Rei de Espanha de 1516 a 1555, que privou a nobreza espanhola dos jogos com Touros e mais tarde Filipe V, Rei de Espanha entre 1700 e 1746, veta os jogos com Touros em Espanha. Estas restrições no país vizinho impulsionaram esses jogos em Portugal que se desenvolveram e se afirmaram com o aumento da procura, em boa parte proveniente do interesse nas regiões fronteiriças que obtinham em Portugal o prazer das lides que lhes foi dificultado em Espanha.

1683-1706
D. Pedro II era um grande aficcionado e toreava. D. Maria Sofia, sua esposa apaixonada e preocupada com os males que poderiam suceder ao seu marido, conseguiu que o Rei emitisse um decreto que tornava obrigatório o embalamento (corte da ponta dos cornos e seu envolvimento em material resistente que lhe retire capacidade de perfuração mortal) em todas as corridas portuguesas. Isto foi considerado uma fraude no restante mundo taurino onde consideram essencial que o Touro se apresenta na plenitude das suas capacidades.

1777 
Marquês de Pombal proibe as Touradas após uma em que faleceu uma figura nobiliárquica muito estimada pelo actual Rei D. José, voltando a ser permitidas anos mais tarde.

1777-1816 
D. Maria I não era adepta da touradas e desagradavam-lhes as brutalidades e barbaridades presentes nas práticas tauromáquicas. Foi no seu reinado que foram eliminadas práticas como o picar do touro por parte dos populares antes das lides e o cortar dos tendões das patas traseiras para debilitar o Touro a que se seguia uma largada de matilhas de cães para o dominarem. Interviu na organização das lides para atenuar a barbárie e civilizar o povo.

1816-1826 
Durante o reinado de D. João VI a Tauromaquia foi relegada para segundo plano não lhe sendo dada a importância e relevo que teve no passado.

1826-1828
A neta de D. João VI, D. Maria II, chega mesmo a condenar publicamente a Tauromaquia considerando-a bárbara.

1828-1834 
D. Miguel I anula a tendência da sua sobrinha D. Maria II e restaura o estatuto da Tauromaquia incentivando a sua recuperação.

1836
D. Maria II, novamente no poder, tenta novamente a proibição total o que provocou o insurgir de nobres e plebeus contra a sua medida. Curiosamente, ou talvez não, neste mesmo ano é criada a Inspecção Geral de Teatros e Espectáculos que está intimamente ligada à Tauromaquia.

1889-1908 
D. Carlos I afirma a presença da Tauromaquia na cultura de Portugal e em 1892 é inaugurada a praça do Campo Pequeno em Portugal.

1930 
Só nesta altura os Cavalos passam a ser protegidos por uma malha protectora para impedir a perfuração por parte dos cornos dos Touros. Até aqui era frequente que nas touradas morressem mais Cavalos do que Touros sendo quase considerados como instrumentos dispensáveis para atingir o fim da lide.

Fonte

quinta-feira, 3 de maio de 2012

O Touro e a Tauromaquia em Portugal

Com tanta informação e movimentos pró e anti touradas o que poderá justificar o redigir de mais um conjunto de artigos sobre o assunto?

Apesar de existir muita informação na Internet, para quem investigue o assunto a fundo, o autor dos textos que se seguem achou que existe uma dispersão muito grande de informação com tendência para a parcialidade exagerada.

O que muitas vezes salta à vista é que não há um esforço de compreensão dos pontos de vista opostos partindo-se para o deboche, radicalismo ou desvalorização dos argumentos do outro lado da barricada. Será que conhecemos todos os argumentos das partes em confronto?

Por outro lado fala-se muito do acto da tourada em si mas e do Touro? O que realmente conhecemos do Touro? Este foi o ponto por onde decidiu começar porque tem a noção de que a maioria das pessoas não conhece o Touro para além da imagem passada por filmes e Touradas.

E assim surgiu a ideia de redigir este dossier que resume ao máximo a imensidão de informação encontrada, e devidamente referenciada, para que rapidamente se possa ter uma visão global de tudo o que envolve esta luta pró vs anti tourada.

Foi tentada a todo o momento a imparcialidade nos textos redigidos apresentando-se factos tais como são. Claro que em alguns trechos surgem alguns apontamentos de opinião, o que é inevitável tendo em conta que no assunto abordado o autor é claramente anti-tourada.

O objectivo deste dossier é o de levar os seus leitores a tomarem ou firmarem a sua posição sobre a Tauromaquia, e em particular a tourada.

Como é importante para enquadramento e para a própria interpretação dos textos fica aqui uma pequena apresentação do autor. Os artigos foram redigidos por Nuno Faria, nascido em 1977, tornado vegetariano em 1997 por convicção própria porque ser defensor dos animais implica a não abertura de excepções mesmo quando por razões alimentares impostas culturalmente. Informático de profissão é o criador do PortugalZoofilo.net em 2005 que procura apoiar a organização de associações de animais abandonados. Acredita que as mudanças devem acontecer organicamente e não ser impostas através de confrontação ou condicionamento. Informar, questionar, levar ao pensamento e a conclusões próprias e individuais são o caminho para a transformação pessoal, local e global.


Conhecer o Touro

No meio da acesa discussão anti e pró tourada muitas vezes centra-se a argumentação em aspectos éticos, políticos, culturais, económicos e sociais esquecendo-se a devida apresentação daquele que deve ser o verdadeiro objecto da discussão: o Touro

O que realmente sabemos sobre os Touros para além de serem um animal possante, de grande envergadura, macho do gado doméstico e utilizado em actividades Tauromáquicas? Quando ouvimos ou pronunciamos a palavra Touro o que mais nos vem à ideia? Um Touro pastando tranquilamente num prado, no seu habitat natural, ou um Touro com uma pose agressiva em combate dentro de uma arena? O mais provavel é que lhe ocorra esta última pois é essa a imagem mais passada nos orgãos sociais onde a palavra Touro está intimamente ligada à Tourada. Se lhe pedirem um sinónimo de Touro provavelmente na maior parte das vezes Besta Negra será dito primeiro do que Boi.

Com este artigo procuro desfazer esta imagem construída pelo marketing da Tauromaquia e fazer um resumo das principais características dos Touros.

Espero que no minímo contenha curiosidades de que não fazia ideia e o faça rever os seus conhecimentos sobre este animal tão mal conhecido pela sociedade.

Aurochs - O Antepassado Comum


Os Grandes Aurochs
Todas as raças, ou sub-especies, de Touros descendem do Auroch, um bovino gigantesco com uma altura de ombros de 2 metros e peso na ordem da tonelada (à esquerda é representado pelo touro a branco comparativamente com um touro contemporâneo e um humano) .

Os Aurochs desenvolveram-se na India há cerca de 2 Milhões de anos, chegaram à Europa há 250 000 anos, e extinguiram-se em 1627.

Grande contributo para a sua extinção foi o facto de devido ao seu porte e capacidade de defesa se ter tornado um alvo popular de desafios de caça. Alvo da caça e considerado concorrente ao gado doméstico não foi capaz de resistir até aos dias de hoje.

A partir desta espécie derivaram muitas outras, como o gado domesticado a surgir há cerca de 8 000 anos. Todas elas têm um porte bastante inferior ao Auroch.

O Touro de Hoje
Touro Adulto


  • Bos Taurus é o nome científico deste mamífero com dieta herbívora.
  • Altura de 1,5 metros.
  • Comprimento de 1,5 a 1,8 metros.
  • Peso típico de 500 Kg a 900 kg (dependendo da subespécie). Mas o recorde de peso de um Touro é de 1 750 kg.
  • Têm aproximadamente 38 litros de sangue no corpo.
  • Velocidade máxima atingida de 40 Km/h.
  • Têm um período de gestação de 9 meses com uma a duas crias. Protegem a sua prole com bravura e fúria cega.
  • Longevidade de 15 a 25 anos, atingindo o seu tamanho máximo com a idade de 2 a 3 anos. A maturidade completa é atingida aos 4 a 5 anos.
  • O registo do bovino a viver com mais idade foi de 49 anos!
  • Vivem em manadas de 40 a 50 elementos com uma hierarquia social bem demarcada existindo um Touro que é o macho dominante.
  • Têm um couro grosso e rijo.
  • Têm um complexo aparelho digestivo com um estômago segmentado em 4 compartimentos que permitem gerar enzimas capazes de digerir substâncias impossíveis de digerir por outros animais.
  • Têm um ângulo de visão de quase 360º e são daltónicos.
  • Conseguem cheirar odores a mais de 8 km de distância.
  • Ouvem frequências mais baixas e mais altas que os humanos.
  • Mastigam na ordem das 50x por minuto atingindo os 400 000 movimentos de mandíbula por dia.
  • Devido à anatomia dos seus joelhos são capazes de subir escadas mas não de as descer.
  • Um animal de 1 tonelada produz 10 toneladas de estrume por ano.
  • Os seus predadores são o homem, os lobos e os ursos.
  • Estima-se que existam no mundo mais de 1.3 biliões de cabeças de gado. Uma pequena parte ainda em estado selvagem.
  • Estima-se que 18% dos gases emitidos que provocam efeito de estufa tenham origem na flatulência e arrotos do gado mundial.
  • Já têm o seu genoma mapeado. Têm 22 000 genes. 80% dos quais partilhados com os humanos. 1 000 partilhados com cães e roedores.
  • Em Portugal praticamente desapareceram as antigas raças de Touro bravos indígenas. Os que hoje pastam nos nossos campos são maioritariamente descendência da casta Andaluza de Vista Hermosa.
  • No passado um Touro era lidado aos 5 anos, idade em que era considerado estar no expoente máximo das suas faculdades: potência, inteligência e resistência. Hoje são-no aos 3 anos, idade em que já atingiram a sua máxima envergadura mas não o pleno da sua maturidade.
  • Com um ano de idade são marcados com ferros em brasa.
  • Com 2 anos as vacas bravas são submetidas ao exame da tenta que procura aferir o grau da sua predisposição e habilidade para a luta. É picada e lidada a cavalo e a pé para provocar reacções em resposta às agressões. As que consideram mais bravas são enviadas para os prados para se reproduzirem as outras seguem para a indústria da carne.
  • Dezenas de milhares de Touros são mortos anualmente em todo o mundo em actividades Tauromáquicas.
  • Existe um Signo do Zodíaco e uma Constelação de Estrelas com o nome Touro.


O Comportamento do Touro

Os ganadeiros e toureiros têm um grande conhecimento sobre o Touro, que é a base da sua actividade, pelo que as descrições mais detalhadas e empíricas sobre Touros são feitas exactamente por agentes da Tauromaquia. Surpreendentemente as suas descrições chegam a ser quase poéticas e com tal nível de detalhe e paixão pelo animal que duvidamos que quem fala assim do Touro possa depois executar e apreciar a sua lide. A título de exemplo veja-se este excerto do ABC da Tauromaquia de El Terrible Pérez onde são reconhecidas várias características ao comportamento/psicologia do Touro que automaticamente o catalogam como um ser senciente completamente consciente do mundo ao seu redor.

Ao contrário do que se pensa, na zoologia o Touro é considerado um animal cobarde, indisposto para a resolução de conflito através da luta. A sua defesa é a fuga sempre que esta lhe seja permitida. Apenas reagem com uma violência e fúria cega em duas situações: 1) para defenderem a sua prole; 2) quando encurralados e agem violentamente como mecanismo de defesa.

A memória dos Touros é sobejamente reconhecida como sendo capaz de recordar eventos que tenham ocorrido há anos. De tal forma que uma das regras da criação de um Touro bravo é a de jamais o castigar com qualquer um dos castigos que lhe serão infligidos no futuro numa arena. Isto porque se o fossem uma única vez deixariam de ter a bravura que demonstram ao reconhecer os instrumentos de tortura usados na lide.

Aliado à sua memória o Touro tem uma alta capacidade de aprendizagem. É por isso que na Tauromaquia proibem, ou desaconselham, que um Touro seja lidado mais do que uma vez. Porque também aprende com as acções dos toureiros o que pode levá-lo a desenvolver ao longo do tempo novas estratégias e movimentos para conseguir colher com sucesso o toureiro. Ou seja pode tornar-se imprevisível para os homens que o lidam.

Em termos de linguagem o Touro tem chamamentos diferentes para exprimir o desejo por uma fêmea, emitir ou responder a um pedido de socorro e preparar-se para a luta.

É muito sensível às temperaturas extremas e procura abrigar-se do frio e chuva bem como do calor para se colocar mais confortável e protegido.

Um Touro revela também simpatia, antipatia ou mesmo empatia. Existem várias histórias de Touros bravos que no seu ambiente natural permitem a aproximação e o toque por parte de crianças. E quando encontra locais aprazíveis deixa-se por aí ficar. Uma história muito conhecida é a do Touro "Gallego" de D. Florentino Sottomayor que foi lidado na praça de Madrid matando um toureiro. Dias antes esse Touro cruzou-se com outro toureiro, a Cavalo, junto a um bebedouro na zona onde era criado. Touro e Cavalo iam competir pelo mesmo bebedouro. O cavaleiro estava receoso do que poderia ocorrer. E eis que o Touro cede passagem ao Cavalo para que este se saciasse primeiro após o que ele próprio foi beber com um ar de satisfação. Dias depois, na arena, esse Touro manso matou.

Anatomia do sofrimento de um touro (quando espetado pelo 'matador' na praça de touros)


Há algo que gostaria de partilhar, visto que a informação está a ser publicada de forma galopante pelos meios de comunicação social.
Eu não pude ficar indiferente à informação fraudulenta que por aí circula, numa tentativa de justificar o injustificável! Ainda por cima vindo de "profissionais" da área, isto é verdadeiramente triste, senão vergonhoso!

Analisando a imagem:
Primeiro que tudo existem vários tipos de stress, segundo as hormonas corticosteróides, como o cortisol, não são catecolaminas (Adrenalina, epinefrina, etc.), terceiro é lógico que o cortisol esteja mais elevado durante o transporte, afinal ele está relacionado principalmente com respostas de stress a longo prazo, não a curto! A informação da imagem não tem valor científico algum! Apenas vem afirmar o que consta há 50 anos nos livros de Fisiologia! Se os defensores das touradas querem ser levados a sério façam uma pesquisa dos níveis dos mediadores da dor (bradicinina, serotonina, substância P, etc.) e das catecolaminas, aquando de todos os processos que o animal é sujeitado!
Dizer que o animal não sofre porque apresenta níveis de cortisol mais baixos do que em transporte é algo surreal!
Estão a misturar os pés com as mãos.
 E isto não sou eu que estou a inventar, consta em todos os manuais de Fisiologia, é uma das bases da fisiologia e um falha gravíssima atentar contra isto!

Dor ≠ Cortisol - Não podemos deixar que moldem os factos em favor das circunstâncias!
O pior é que isto até foi publicado no jornal de notícias e tem vindo a ser utilizado como argumento!
Um aplauso à ignorância gratuita!

Na minha óptica isto é VERGONHOSO!
É preciso filtrar a informação, pois há muita gente que acredita neste artigo falacioso!


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"Toros Libres"

Artigos

Referência à nossa publicação no site ANDA

sábado, 24 de março de 2012

Angariar fundos com mais uma tortura?


Mais uma notícia que nos indigna e reprovamos. O União Desportiva Vilafranquense, clube do qual eu fui atleta, teria muito mais a lucrar não aceitando dinheiro de um espectáculo que em nada dignifica o clube. Sendo um clube que impulsiona e promove o desporto e a cultura no nosso concelho, deveriam pois organizar outros eventos que se identifiquem com os valores da colectividade, para incentivar os seus atletas ao respeito no mundo desportivo.
Lamentamos que o União Desportiva Vilafranquense se associe a tais eventos.
Orgulho e Honra não se coadunam com tauromaquia sr. Luis Feijão!




Festival taurino para exaltar o bairrismo e o orgulho de Vila Franca
...
O que seria uma grande ajuda para a Casa dos Forcados e o União Desportiva Vilafranquense (UDV) que vão beneficiar das receitas do espectáculo.
...
Apesar da receita de bilheteira ser importante os responsáveis da Casa dos Forcados e do UDV dizem que mais importante é mostrar o bairrismo e o orgulho de ser vilafranquense.
..
Ao mesmo tempo ajudamos duas associações, uma delas o UDV, que precisa bastante do apoio de todos.
...
O presidente da Comissão Administrativa do UDV, Luís Feijão, disse estar “honrado” com a parceira feita com a casa dos forcados e defendeu que o festival deve, acima de tudo, “mostrar a vitalidade do clube”. 
O Mirante

A nova oportunidade de Luís Capucha

foto
Em Vila Franca de Xira a tauromaquia está muito acima da política. Só assim se percebe que o professor e sociólogo Luís Capucha, antigo responsável das Novas Oportunidades do Governo PS, tenha sido convidado para falar de toiros num debate organizado pelo PSD, na quinta-feira, em Vila Franca de Xira, onde curiosamente esteve o actual responsável das Novas Oportunidades, Gonçalo Xufre, também presidente da Comissão Política do PSD de Vila Franca de Xira.

O socialista Luís Capucha expandiu-se sobre o tema de toiros, tauromaquia e afins enquanto o social-democrata Gonçalo Xufre “não saiu da trincheira” entre a assistência e acabou por sair antes do final. Talvez por não estar a gostar da lide. Luís Capucha, que foi exonerado pelo actual Governo, pelos vistos agora só consegue brilhar a falar de toiros e tauromaquia. Pelo menos assim só “incomoda” quem não gosta da área.


Nota:
O sr. professor perdeu as oportunidades no PCP e foi á procura das Novas do PS, agora que só sabe falar de tauromafia, assenta-lhe que nem uma luva.. mas olhe que vai ser por pouco tempo porque o tema está em decadência.

Tourada...

sexta-feira, 23 de março de 2012

A «tradição» das touradas

No 2º volume dos «Cadernos de Lanzarote», José Saramago reproduz um artigo que publicou na revista Cambio 16.
Transcrevo dois trechos:
«O touro entra na praça. Entra sempre, creio. Este veio em alegre correria, como se, vendo aberta uma porta para a luz, para o sol, acreditasse que o devolviam à liberdade. Animal tonto, ingénuo, ignorante também, inocência irremediável, não sabe que não sairá vivo deste anel infernal que aplaudirá, gritará, assobiará durante duas horas, sem descanso. O touro atravessa a correr a praça, olha os “tendidos” sem perceber o que acontece ali, volta para trás, interroga os ares, enfim arranca na direcção de um vulto que lhe acena com um capote, em dois segundos acha-se do outro lado, era uma ilusão, julgava investir contra algo sólido que merecia a sua força, e não era mais do que uma nuvem. Em verdade, que mundo vê o touro?» (…) 
«O touro vai morrer. Dele se espera que tenha força suficiente, brandura, suavidade, para merecer o título de nobre. Que invista com lealdade, que obedeça ao jogo do matador, que renuncie à brutalidade, que saia da vida tão puro como nela entrou, tão puro como viveu, casto de espírito como o está de corpo, pois virgem irá morrer. Terei medo pelo toureiro quando ele se expuser sem defesa diante das armas da besta. Só mais tarde perceberei que o touro, a partir de um certo momento, embora continue vivo, já não existe, entrou num sonho que é só seu, entre a vida e a morte».

Quando José Saramago leu o texto a sua mulher, Pilar, disse
«Não podes compreender…” Tinha razão», diz o escritor, «Não compreendo, não posso».

É sempre o que os defensores das touradas, quando vêem que os seus «argumentos» não são aceites, dizem. Quem acha que as touradas são um espectáculo degradante e advoga a sua proibição imediata «não compreende». Porque, dão a entender, para compreender uma coisa tão poética, tão tradicional, é preciso ter uma sensibilidade especial.
Pergunto – o que há para compreender? Um negócio onde se cruzam ganadeiros, apoderados, toureiros, empresários… pega num animal, confina-o num «anel infernal», e tortura-o até à morte. O que há para perceber neste fenómeno que nada tem a ver com património cultural, nem com tradição e muito menos com poesia – que tem a ver, sim, com os obscuros corredores da mente humana onde se oculta um atávico prazer em fazer sofrer outros seres como catarse para os sofrimentos pessoais.

Os aficionados desenvolvem uma teoria de contornos iniciáticos: quem não entende a magia da corrida não tem o direito de a criticar. Ou seja, para poder contestar as touradas é preciso gostar delas, estar por dentro do mistério da corrida, sentir a poesia de uma tarde de touros… Obscuras banalidades deste tipo, mas nem só um argumento sólido e aceitável.

Nos tempos de Roma usavam-se pessoas, embora já houvesse quem protestasse. O que responderiam os defensores do espectáculo – que era uma tradição e que os escravos nasceram para morrer. E haveria também apreciações sobre a beleza poética de ver animais selvagens e famintos despedaçar seres humanos, sobre a «nobreza» com que uns morriam sem se defender e a falta de aprumo com que outros tentavam vender cara a vida. Nem sei porque é que os defensores das touradas não incorporam o circo de Roma na sua tradição.
A Antiguidade Clássica daria um toque de erudição à «Fiesta». Assim só têm o Hemingway para dourar o seu historial.

Falando da tradição taurina em Portugal, ela é tão forte e tão antiga que a própria tourada à portuguesa é acompanhada por "pasodobles". Os aplausos do público exprimem-se em "olés" e a terminologia taurina é toda em castelhano.
Tradição portuguesa? Sempre que se fala na história das touradas, lá vem o conto de Rebelo da Silva, «A última corrida de touros em Salvaterra». Só este conto é metade da tradição, a outra metade é espanholice pura.

Vem isto a propósito da discussão acesa que vai pelo Parlamento catalão sobre a proibição, ou não, das touradas na Catalunha. Perante a Comissão parlamentar do Meio Ambiente, 14 peritos em diversas áreas esgrimiram ontem argumentos a favor e contra a tauromaquia. Está em causa a anunciada proibição das corridas de touros na comunidade. Esta medida é apoiada por uma Iniciativa Legislativa Popular que reuniu 180 mil assinaturas.
Os pro-taurinos defenderam a bravura do touro e a sua condição de animal nascido para morrer lutando, bem como a sua resistência ao sofrimento.
Os anti-taurinos descreveram em pormenor o sofrimento do animal. Passando ao plano cultural, os defensores falaram nos valores da «fiesta», a emoção, a comunhão na praça, a catarse colectiva da multidão.
Os anti insistiram na crueldade da tortura e da morte do animal, da psicótica aberração de extrair prazer dessa barbaridade. Os pró lamentaram que os aficionados catalães tenham de viver na clandestinidade, embora afirmem que o público é apaixonado pelo espectáculo taurino e que são os políticos quem acirra o povo contra a tradição. Num terceiro plano, o da identidade, todos os deputados, da direita à esquerda, deixaram claro que a abolição da tauromaquia na Catalunha nada tem a ver com a identidade nacional.

Um toureiro e ganadeiro de Madrid, disse que, ao fim e ao cabo, o protagonista do debate é o touro. E com a autoridade de quem está por dentro, falou em nome dos interesses do animal: «É o animal mais formoso do mundo e o melhor tratado. Se fecharem as praças, extinguir-se-á». E depois, derivou para a poesia barata «É um espectáculo, um sentimento, a paixão da vida e da morte, do respeito e da entrega». No entanto, não respondeu às perguntas dos deputados, pois eram formuladas em catalão.
Os pró falaram de sofrimento, escudando-se na capacidade do touro para sofrer. A escritora Natalia Molero interveio, aludindo à «capacidade que o touro tem de libertar meta-endorfinas durante a lide para anestesiar a dor».
Os anti contra-atacaram com força. Desmontaram um a um os argumentos dos defensores.
Jorge Wagensberg, um cientista, descreveu todo o arsenal utilizado para matar o touro, descreveu os instrumentos, da bandarilha ao estoque, tudo bem afiado e reluzente e disse. «Isto dói? Claro que dói!”.
O etólogo Jordi Casamitjana, perito em sofrimento animal, utilizou elementos que permitem avaliar o sofrimento do touro, incluindo fotografias, e concluiu: «De um ponto de vista ecológico e zoológico, o touro de lide sofre individual e socialmente, física e psiquicamente».
O meu camarada de lides (editoriais), Jesús Mosterín, interveio, na qualidade de filósofo, com ironia cáustica: «Escandalizamo-nos porque em África se corta o clítoris às mulheres e noutros países causa escândalo que se continue fazendo um espectáculo público do sofrimento dos animais». E prosseguiu: «É verdade que as corridas de touros são tradicionais», concluindo sob os protestos dos deputados pro-taurinos: «Maltratar as mulheres também é uma tradição e, apesar disso, está a ser combatida».
Josep María Terricabras, outro filósofo, de forma mais suave, percorreu a lista de argumentos básicos dos defensores da «fiesta», para chegar a uma conclusão: «Aos partidários da fiesta falta um argumento ético fundamental. Fazer sofrer um animal por prazer é totalmente reprovável. Os touros são maltratados, como antes o foram as mulheres e os escravos». A sessão prosseguirá hoje com depoimentos de outros 13 peritos em diversas áreas.

Apenas quero levantar uma questão – quando é que em Portugal discutimos este assunto? A cobardia dos sucessivos governos tem permitido, mesmo no pós-25 de Abril, que vergonhas como as de Barrancos continuem.
Invoca-se ali a tradição. Qual tradição? Um espectáculo que viola a lei e todas as regras da segurança, para já não falar nos princípios humanitários, iniciado em 1928 já é uma tradição? Mas mesmo que fosse. Como disse Mosterín, há tradições inaceitáveis e que têm sido combatidas com êxito. A prostituição, a pena de morte, a escravatura, duraram milénios. Não é motivo para que não tenham sido e continuem a ser combatidos.
Porém, quando vemos o Bloco de Esquerda, sempre tão preocupado com os problemas ecológicos e com os direitos dos animais, a aceitar uma trânsfuga do Partido Comunista numa autarquia ribatejana (Salvaterra de Magos, a do conto de Rebelo da Silva), defendendo a senhora abertamente os touros de morte, a esperança de que esta chaga cultural seja banida esmorece. A avidez pelos votos, submerge convicções e programas.

A tourada em Portugal está longe de ter as raízes que tem no estado vizinho, onde move interesses de grande monta. Quando é que em Portugal nos ocupamos da discussão a sério desta «tradição» tão nacional que até só se exprime em castelhano?
Em 1836, o ministro do Reino Passos Manuel promulgou um decreto proibindo as touradas (Em Portugal, em 1779, as touradas foram proibidas no tempo do Marquês de Pombal, após uma corrida de touros realizada em Salvaterra de Magos em que faleceu na arena o Conde dos Arcos, grande figura nobiliárquica estimada pelo monarca D. José I. Voltaram a ser permitidas anos mais tarde, mas sendo proibidos os chamados touros de morte, onde o touro não pode ser morto em praça pública):
Considerando que as corridas de touros são um divertimento bárbaro e impróprio de Nações civilizadas, bem assim que semelhantes espectáculos servem unicamente para habituar os homens ao crime e à ferocidade, e desejando eu remover todas as causas que possam impedir ou retardar o aperfeiçoamento moral da Nação Portuguesa, hei por bem decretar que de hora em diante fiquem proibidas em todo o Reino as corridas de touros.” 
Porém as «razões» do costume prevaleceram e nove meses depois as corridas regressaram.

A maioria municipal socialista de Viana do Castelo, em 27 de Fevereiro de 2009, decidiu não permitir a realização de qualquer espectáculo tauromáquico no espaço público ou privado do município, sempre que ele dependa de qualquer autorização a conceder pela autarquia. Viana do Castelo (com maioria socialista) antecipou-se à Catalunha.
Portugal, com um governo socialista, não deveria, pelo menos, encetar o debate sobre o tema? Quando é que se reconhecerá aquilo que há quase dois séculos já era óbvio para algumas pessoas – as touradas são um divertimento bárbaro e impróprio de nações civilizadas?







por Carlos Loures

segunda-feira, 12 de março de 2012

Maestro Vitorino d'Almeida

"Se Tourada é Cultura, Canibalismo é Gastronomia"

Programa 'A Voz do Cidadão' emitido em 10 de Março de 2012 na RTP1.
Entrevista do Provedor do Telespectador da RTP ao Maestro Victorino D'Almeida a propósito da transmissão de touradas na televisão pública portuguesa.

"... é selvajaria torturar os nossos irmãos vivos..."




É PRECISO DIZER MAIS??

Maestro António Victorino d'Almeida, touradas e Julio Pomar

No primeiro episódio (6/3/2011) de Memórias de Mim Mesmo, ao minuto 20, o Maestro António Victorino d'Almeida encontra-se com Júlio Pomar, um grande amigo com quem tem uma “discussão” sobre o tema "Touradas". 
Júlio Pomar é aficionado, o Maestro é contra a tourada.

Pois bem, sob o olhar amigo e receptivo de Júlio Pomar, o Maestro faz a mais clarividente e deliciosa ridicularização da tourada:




domingo, 11 de março de 2012

Tauromaquia - o sadismo cobarde dos incivilizados

Como diz o Maestro Vitorino d’Almeida “Se tourada é cultura, canibalismo é gastronomia”.

Tauromaquia, ao contrário do que certos cobardes sádicos dizem, não passa de uma tradição doentia, de um grupo restrito e longe de ser consensualmente aceite. Mesmo assim, ainda é uma realidade em Portugal que, quando assinou a Declaração Universal dos Direitos do Animal , teve a infelicidade de solicitar uma excepção para os touros, em nome dessa tradição bárbara a que se chama tourada.

Já há dois séculos atrás, Alexandre Herculano (historiador e poeta português do século XIX) referiu-se, em o Bobo, às touradas da seguinte forma: "…espectáculo de eras barbaras, que a civilização, desenvolvendo-se gradualmente por alguns séculos, ainda não soube desterrar da Península, e que nos conserva na fronte o estigma dos bárbaros, embora tenhamos procurado esconder esse estigma debaixo dos ouropéis e pompas da arte moderna e pleitear a nossa vergonhosa causa perante o tribunal da opinião da Europa com sofismas pueris e ineptos.".
Lamentavelmente, esta citação é tão aplicável aos dias de hoje, como o era há séculos atrás.

E, mais lamentável ainda, é o facto de continuar a ser abundantemente divulgada, inclusive pela RTP, o que está errado a diversos níveis (a TVI também publicita os “eventos”, mas desta não se pode esperar grande coisa) e passarei a referir alguns dos motivos.
 É amplamente sabido que exercer actos de violência gratuita sobre animais, torturando-os lentamente e matando-os é um dos maiores indicadores de uma personalidade extremamente violenta e deficiente em sensibilidade: basta olhar para as biografias de serial killers, violadores (e sádicos em geral) para ver que quase todos eles começaram a sua escalada de violência com animais. Mesmo assim, alguns pais irresponsáveis submetem os filhos à visualização destes “espectáculos de tortura” desde tenra idade, levando-os aos recintos da orgia sanguínea e correndo o risco de contribuir para a criação de uma personalidade doente. Algumas crianças choram aflitas e, ainda assim, os seus “pais” tentam incutir na sua mente que tal é arte, indiferentes ao sofrimento do animal e do seu próprio filho - são monstros a tentar criar monstros, que em vez de educar para a compaixão, parece que educam para um sadismo cobarde. Como se não bastasse, também a televisão tem a indecência de passar tais programas em horário diurno, acessível às crianças cuja personalidade se encontra em construção. Sendo a personalidade da criança algo em construção como é possível considerar que assistir a actos sádicos sobre seres mais fracos será benéfico para o seu desenvolvimento? A resposta é simples: não tem nada de benéfico. Há filmes sádicos para adultos que são menos violentos do que a tradição tauromática, a qual ainda tem a agravante obscena de ser real (e não um produto de ficção cinematográfica). Os espectáculos tauromáticos deviam acabar por estas razões óbvias, mas a existirem devia haver um grãozinho de consciência e decência para não os passar na televisão antes da madrugada (quando as crianças estão a dormir) e com alertas iniciais quando ao ferimento de susceptibilidades, por se tratar de um “documentário” de terror real.

Além disso, é uma actividade completamente cobarde, um jogo vergonhosamente viciado para que o “vencedor” seja sempre o mesmo. Não é à toa que se cerram os cornos do touro e lhe é dada uma certa dose de anestesia antes de entrar na arena, tal como não é toa que se monta a cavalo para lidar o touro, criando todas as condições para que o “derrotado” seja sempre o mesmo O que chama a isto? Cobardia, claro está.

Estimado leitor, cultura é literatura, cinema, música, desporto, teatro, pintura, … e só é verdadeiramente cultural, o que possa contribuir para o desenvolvimento da sociedade e para a evolução positiva da mentalidade e personalidade do ser humano. Além disso, a cultura específica de um país deve reflectir a vontade geral dos seus habitantes e em Portugal a grande maioria dos cidadãos desaprova esta “actividade”. Apenas uma minoria de fanáticos apoia esta tortura e, muitas vezes, apenas porque ganham dinheiro com isso. É este o país “democrático” em que vivemos, onde apenas se têm em conta os interesses doentios e corruptos de uma minoria que faz da tortura e sofrimento animal o seu modo de ganhar a vida. Tudo isto é tão cultural e eticamente errado, como eram as execuções em praça pública na Idade Média ou a mutilação genital que hoje em dia ocorre em certos países. Tudo isto foi/é feito em nome da tradição e cultura e não é por isso que se torna aceitável.

Como diria Mahatma Gandhi :
A grandeza de uma nação pode ser julgada pelo modo que seus animais são tratados
E torna-se necessário evoluir enquanto sociedade, transformando em histórias do passado as crueldades gratuitas que ainda hoje se permitem.
Fonte

A tourada, razão da existência do touro bravo?

Hugo Evangelista – Biólogo

"Um dos argumentos frequentemente mencionados em debates sobre touradas é o da importância em manter a espécie do touro bravo. Os proprietários das ganadarias mantêm os touros nos seus terrenos, não porque tenham uma grande consciência ecológica e ambiental, mas porque daí retiram dinheiro. Muito dinheiro. No dia em que os touros deixarem de ser vendidos a 2000 euros cada (sem contar com chorudos subsídios europeus), cerca de 2600 animais por ano (DN, 2007), os proprietários das ganadarias rapidamente se esquecerão de qualquer importância ecológica ou da biodiversidade do touro bravo. É esta a principal, senão a única, verdadeira razão para a continuação das touradas no nosso país - um forte interesse económico de um pequeno grupo de pessoas. É claro que, para desculpar o indesculpável, atiram para os olhos o argumento de se querer proteger uma espécie. Mas nem o touro bravo é uma espécie, porque é sim uma raça ou subespécie, nem a extinção desta raça é irremediável e obrigatória quando as touradas acabarem. A extinção desta raça não é irremediável nem obrigatória porque nada impede a criação parques naturais, santuários ou outras soluções viáveis para a conservação destes animais. O que não pode nunca acontecer é justificarmos a crueldade para com uma animal para o poder "conservar". Cabe na cabeça de alguém que a conservação do panda passe por lhe espetar bandarilhas no dorso? Que o repovoamento do lince ibérico na Península Ibérica passe por lhe cortar as orelhas e rabo? A conservação de espécies / raças, não é argumento para continuar as touradas. É um papel que tem de ser assumido pelos portugueses e pelo Estado e não por empresas que da exploração desses animais retiram avultados lucros. Existe outro argumento frequente, que é o da conservação dos ecossistemas, mas este é ainda mais frágil. É que estamos a falar de um animal totalmente domesticado, que só existe por selecção artificial de características de interesse, que no caso do touro bravo é essencialmente a bravura. Ou seja, o touro bravo não existe no campo por estar em total equilíbrio e conjugação com a Natureza. Está lá porque os ganadeiros assim o fizeram e ali o colocaram. Isto significa que um touro bravo é, no mínimo, um elemento supérfluo na manutenção dos montados portugueses. Voltamos então ao único argumento de peso para a manutenção das touradas. Os interesses económicos. Interesses esses que vivem de um espectáculo que promove a ideia de que existe justiça e igualdade em colocar um animal num local estranho e com regras definidas pelos humanos; que coloca animais numa luta que estes não desejam mas são forçados a entrar; que vive da diabolização da imagem de um herbívoro territorial e faz disso um espectáculo de entretenimento.

É vital rejeitarmos esta visão subversiva da realidade. É preciso dizer que a tourada não é uma fatalidade e que podemos acabar com uma das formas mais indignas e desumanas de tratamento dos animais da actualidade. O caso muito recente de Viana do Castelo dá-nos força e entusiasmo. É vital agora a maioria silenciosa que se opõe às touradas mostrar o seu descontentamento, de forma pró-activa e com um único compromisso: o respeito pelos animais e pela Natureza."

Consequências de ver videos de touradas em crianças


Um grupo de investigação de uma universidade espanhola realizou um estudo sobre os efeitos que assistir a uma tourada produz em crianças espanholas.
O estudo efectuou-se com 240 crianças oriundas de Madrid, 120 rapazes e 120 raparigas com idades compreendidas entre os 8 e os 10 anos, de vários contextos socioeconómicos. Foi-lhes mostrado vídeos de touradas com 3 narrações distintas, uma justificando-a como uma “festa nacional”, outra relatando-a como violenta e uma terceira narração que pretendia ser imparcial e neutra.
No presente estudo, 60% das crianças referiu a morte do touro como a parte que menos gostavam das touradas. Ao nível emocional e cognitivo, 52% sentiu mágoa ao ver o evento; mais de metade achou que não se devia fazer mal ao animal e um quarto da amostra, referiu que era um exemplo claro de mal trato animal.
As crianças que viram o vídeo com a narração de que era uma festa nacional (descrevendo a tourada mas ignorando as suas consequências negativas), obtiveram pontuações mais altas na escala de agressão e de ansiedade, em comparação com as que viram o vídeo com uma narração neutra. Dentro do mesmo grupo, os rapazes de nove anos alcançaram níveis de agressividade superiores às raparigas.
O vídeo com uma narração violenta causou maior impacto emocional negativo nas crianças, em comparação com as que viram o vídeo com uma narração neutra e imparcial. A principal conclusão é que a mensagem que acompanha o vídeo, produz grandes consequências na agressividade e ansiedade. As narrações “festivas” produzem maiores níveis de agressão e ansiedade, enquanto que, as narrações focadas nos aspectos negativos, produzem um maior impacto emocional nas crianças.
Assistir e ver episódios ou cenas violentas tem um maior impacto em crianças e no seu comportamento, do que em adultos, esta susceptibilidade dos mais jovens prolonga-se até aos 19 anos de idade (Viemero, 1986; Viemero e col., 1998). As raparigas parecem saber distinguir melhor entre realidade e ficção, enquanto que os rapazes tendem a analisar se o que vêem é possível e se corresponde ao que é esperado deles, identificando-se mais facilmente com personagens agressivas (Huesmann, 1986; Huesmann e col., 1998).
Ao passo que as justificações dadas ás cenas agressivas vão aumentando, também a tolerância das crianças a estes comportamentos violentos vai crescendo, aumentando por sua vez o seu nível de aceitação geral em relação a comportamentos agressivos (Drabman e Thomas, 1975; Drabman e col., 1977; Peña e col.,1999; Ramirez, 1991, 1993; Ramirez e col., 2001).

Podem ler o artigo completo em: “Agressive Behavior. volume 30, pag 16-28, (2004)”.
Fonte


Altera a Lei N.º 27/2007, de 30 de Julho, designando espectáculos tauromáquicos como susceptíveis de influírem negativamente na formação da personalidade de crianças e adolescentes
Março de 2011

Multiplicam-se os estudos académicos que têm, de forma sustentada, demostrado os efeitos negativos das crianças e adolescentes assistirem a touradas na formação da sua personalidade.
Num desses estudos, do Departmento de Psicologia Clínica de Madrid, foram estudados os comportamento de 240 crianças espanholas, com idades compreendidas entre os 8 e os 10 anos, de vários contextos socioeconómicos. A um dos grupos de crianças foram mostrados vídeos de violência contra os animais durante as touradas, tendo de seguida sido observados os níveis mais altos na escala de agressão e de ansiedade, em comparação com outros grupos controlo. Dentro do mesmo grupo, os rapazes alcançaram níveis de agressividade superiores às raparigas.
A realidade é que a transmissão televisiva de touradas parece causar, de forma sustentada no conhecimento que está disponível até hoje, um impacto emocional negativo nas crianças, porque produz graves consequências na agressividade e ansiedade das crianças. Esta situação leva a que aumentem as justificações dadas às cenas agressivas, aumentando a tolerância das crianças a estes comportamentos violentos, aumentando por sua vez o seu nível de aceitação geral em relação a comportamentos agressivos.
Esta situação já levou a que vários países tenham limitado ou proibido a emissão televisiva de touradas.
Fonte





Televisão pública espanhola deixa de transmitir touradas
As touradas, uma das mais emblemáticas tradições espanholas, vão deixar de se ter transmitidas pela televisão pública nacional. A Radiotelevision Espanola (RTVE) justifica a medida com o risco de exposição das crianças à violência contra animais.

Decorrente da recente actualização do seu livro de estilo, a RTVE anunciou no sábado que deixará de transmitir corridas de touros, especialmente porque elas coincidem com as horas em que as crianças ainda estão a ver televisão, normalmente durante a tarde.

Esta medida terá, porém, pouco impacto na programação actual, uma vez que a estação já tinha deixado de transmitir regularmente corridas de touros em 2007, por razões comerciais (muitas vezes não conseguia comprar os direitos de transmissão) e optando por transmitir eventos mais populares, nomeadamente jogos de futebol.

O novo livro de estilo da estação estatal passa a consagrar as touradas como um acto de violência contra os animais e escuda-se nesta revisão das normas para justificar a sua decisão.

A Espanha tem vindo a intensificar o debate acerca do fim das corridas de touros, especialmente depois dos decisores da Catalunha terem votado, em Julho último, a favor do fim das touradas naquela região a partir de 2012. Uma medida semelhante tinha já sido posta em vigor nas Ilhas Canárias, que baniram a prática em 1991.

A decisão da Catalunha encorajou grupos de defesa dos animais, que reforçaram os seus protestos em Espanha e no norte de França, onde cerca de 100 touradas decorrem todos os anos.

Pelo contrário, os defensores das touradas vieram criticar a decisão da RTVE, apelidando-a de hipocrisia motivada por razões políticas. “Parece hipócrita que o mesmo critério não seja aplicado a outro tipo de conteúdos. Há muito mais cenas violentas, não apenas contra animais mas contra pessoas, mostradas em filmes e série de televisão e que são transmitidas em canais público”.

Este argumento é, porém, falacioso, uma vez que os filmes e as séries são ficção e as touradas são reais.

RTVE indica, porém, que a decisão não vai ficar “indiferente à relevância do universo das corridas de touros” em Espanha, sublinhando que irá continuar a oferecer “programação que destaque as dimensões artísticas, literárias, ambientais e sociais das touradas”.

As corridas de touros continuam a ser a pièce de résistance das festas que decorrem em muitas localidades espanholas, sobretudo no sul do país, onde esta prática está muito enraizada. Mesmo em Madrid, a praça de touro de Las Ventas, conta com cerca de 19 mil espectadores com bilhete de época.

Em sentido contrário, alguns canais de televisão passaram a desviar mais recursos para a transmissão de corridas de touros, nomeadamente o Canal Plus, um operador privado que introduziu em Maio uma opção que permite aos telespectadores verem uma tourada em 3D, indica o “NY Times”.

A Espanha tem vindo a intensificar o debate acerca do fim das corridas de touros, especialmente depois dos decisores da Catalunha terem votado, em Julho último, a favor do fim das touradas naquela região a partir de 2012

Público


Does bullfighting represent a psychological danger for young spectators ?
Why is it important to raise the question of youth attendance at bullfights ?
The particular nature of bullfighting violence
Traumatic effect of bullfighting spectacles
Habituation or incitement to violence
Does culture protect from the effects of violent spectacles ?
Are the parents who take their children to see bullfights bad parents ?
Learning to bullfight
Conclusion

Entrevista a Vitor Mendes

Ser toureiro é uma graça de Deus(?)
É uma vida difícil...
(...)
"Antitaurinos existiram sempre, mas há 10, 15 anos existe o "animalismo"(*), que tem a ver com uma doença grave da nossa sociedade, em que as pessoas tentam transportar a sensibilidade e o sentimento do que é racional e humano para o animal. E isto porque a nossa sociedade está doente. Existem cada vez mais indivíduos sós, com mais problemas psicológicos, em que a sensibilidade, o sentimento, a relação humana é difícil de alcançar. É difícil sentir e relacionar-se. Por este facto, os animais domésticos são a salvaguarda e a bóia de salvação de muita gente, que tenta transmitir a ideia de que também o toiro é um animal doméstico, o que não é(**). Transportar este sentimento para um animal irracional é totalmente estúpido. Respondendo directamente à sua pergunta, o que se passa em Barcelona é uma atitude política, que vai acabar por não vingar(***). Toureei várias vezes em Barcelona e sei o que estou a dizer."



(*)O Animalismo é uma ideologia fictícia que satiriza o Stalinismo ; É um sistema de cunho político e económico descrita no livro "Animal Farm" de George Orwell.

(**)A Associação de Ganadeiros de Touros de Lide afirma que os touros são animais domésticos! É uma associação animalista(?)

"Existe una polémica de como clasificar al toro bravo, si como animal doméstico o salvaje. Es doméstico ya que, como los otros bovinos, las reses de lidia dependen totalmente para su subsistencia del hombre, quien determina el medio ambiente donde vive y su dieta manejando su evolución por medios de manipulación genética, con el propósito de beneficiarse económicamente de su bravura.” 
ASOCIACIÓN EUROPEA DE GANADEROS DE TOROS DE LIDIA

(***)Enganou-se!

Victor Manuel Valentim Mendes, matador de touros e  ganadero (director de lide e maestro da Escola de Toureio José Falcão) nasceu em Marinhais no dia 14 de fevereiro de 1958.


O matador de toiros que quer ser advogado e aprender a dançar

Vítor Mendes: "Toureio é quase como respirar"
"... o toureio em si é um jogo de racionalidade. Isto não é para ‘kamikazes'! Se assim fosse, o toiro jogaria em 70 ou 80 por cento de vantagem na força, na estupidez."

A Igreja Católica e os espectáculos taurinos

GRANDE CORRIDA CARAS em 2 de Maio de 2010 na PRAÇA DE TOUROS DO CAMPO PEQUENO em Lisboa. Padre Victor Melícias (embaixador português junto da UNESCO)


Em Évora 2011 

«É com profunda estranheza que assisto vulgarmente ao envolvimento da Igreja Católica em espectáculos sádico-taurinos . Não existe festa em honra de um qualquer santo padroeiro, que não assistamos à promiscuidade entre a paróquia local e as festas da aldeia/vila, protagonizadas com uma tourada ou atrocidade similar. 
Não é incomum de todo, vislumbrarmos sacerdotes nas arenas a aplaudir e vibrar com o sofrimento alheio, num cenário de masturbação sádica colectiva. Boa parte das arenas da morte, são propriedade da Santa Casa da Misericórdia , gerida por sacerdotes católicos que delas retiram boas colheitas materiais. Este manto de cobertura moral por parte da Igreja Católica que acolhe e protege estes espectáculos de morte, sangue e sofrimento, fere mortalmente a credibilidade da Igreja Católica, que demonstra que não compreendeu, ou se recusa a compreender, a mensagem de bondade, tolerância e misericórdia trazida por Cristo. 
Tirando o caso do corajoso ex-Bispo de Setúbal, a posição oficial da Igreja Católica perante esta pungente contradição é só uma. Um enorme e ensurdecedor silencio, um meter a cabeça na areia, fazendo de conta que ainda não se deram conta, nem estão a perceber os anseios e dúvidas de quem os interpela. 
Até quando ? Provavelmente até quando já for tarde demais... Sempre foi assim.... É sempre tarde demais. 
Esperemos que não tenha ferido os sentimentos dos que se sentem mais crentes, não foi essa, seguramente, a minha intenção.»
Junho 2007


Cónego Eduardo de Melo Peixoto:
"O espectáculo das corridas à antiga portuguesa , o toureio a cavalo e a pés e os "forcados" como prova de valentia , de coragem e mesmo de arte e sem a morte do touro na arena, aceito-o como aceito a caça e o tiro aos pombos".
Público 18/8/99

ESCOLAS DE TOUREIO – APRENDER A TORTURAR


Foto gentilmente "oferecida"  pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira

Os futuros toureiros começam de tenra idade a ser preparados nestes antros de tortura aos quais se dá o nome de "escolas" de toureio.
Nestas escolas com a conivência dos pais começam bem cedo 6/7 anos a aprender como se torturam animais. Muitos deles acabam por abandonar os estudos para se dedicarem a esta suposta profissão. Tendo em conta a alta taxa de abandono escolar que se verifica no nosso país, muitos deles não chegam a completar a escolaridade obrigatória.

Muitas destas crianças provêm de familías com escassos recursos económicos que veem nesta "profissão" um modo de os seus filho/as atingirem fama, posição social e sobretudo ganharem dinheiro, muito dinheiro.
Começam por aprender toureio de salão que consiste na simulação de uma lide de capote e muleta em que o candidato a toureiro desenha lances com o capote e passes com a muleta.
Para os treinos é usada a chamada “tourinha”.
Mais tarde começam a treinar com bezerras e novilhos nas chamadas aulas práticas.
As aulas práticas passam também por visitas a ganaderias para participação em tentas.
No nosso país não há idade limite para tourear e muitas destas crianças começam a tourear em praças de touros aos 12 anos de idade.

De acordo com dados fornecidos pelos tauromafiosos o nosso país contabiliza 8 escolas de toureio, Vila Franca de Xira, Moita, Azambuja, Santarém, Golegã, Palmela, Almeirim e Coruche.
Estas escolas são financiadas com os nossos impostos, nomeadamente através das Câmaras Municipais.
Uma das "escolas" de toureio mais conhecidas é a de Vila Franca de Xira.

Transcrevemos a publicidade que a Câmara Muncipal têm o descaramento de fazer na sua website:
"A Escola de Toureio “José Falcão” de Vila Franca de Xira foi fundada em 11 de Agosto de 1984, ano do 10º aniversário da morte do matador de toiros vilafranquense, José Falcão.
Em Outubro de 1996, foi constituída uma Sociedade entre a Câmara Municipal de V. F. Xira, o Clube Taurino Vilafranquense e a Junta de Freguesia de V. F.X..
É a única Escola de Toureio Portuguesa que faz parte da Federação Internacional de Escolas Taurinas, desde 2001.
Devido a esse facto, os alunos da Escola têm levado o nome da Cidade às principais praças de toiros de Espanha e França.
A 13 de Junho de 2003, no Salão Nobre da Câmara Municipal, foi assinado um protocolo entre a Companhia das Lezírias, na pessoa do seu Presidente do Conselho de Administração, Dr. Salter Cid, e a Sra. Presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Maria da Luz Rosinha, para a cedência das instalações do tentadero e casa do Cabo à Escola de Toureio.
No dia 1 de Maio de 2004, após as obras de recuperação, foram inauguradas as referidas instalações".
IWAB

sábado, 10 de março de 2012

“Se os anti-touradas se preocupassem mais com as pessoas e menos com os animais a festa acabava”

Luís Ramos, especialista em cirurgia taurina, denuncia a falta de condições de enfermarias mas diz que Vila Franca de Xira é exemplar
Praça de Toiros Palha Blanco 
A falta de condições nas enfermarias das praças de toiros coloca em perigo vidas humanas, diz o especialista em cirurgia taurina, Luís Ramos. A Palha Blanco de Vila Franca de Xira é, pelo contrário, um espaço que faz sombra às melhores praças de Espanha.

Se os anti-touradas se preocupassem mais com as pessoas e menos com os animais a nossa festa acabava”. A afirmação foi feita pelo médico especialista em cirurgia taurina, Luís Ramos, que considera que as enfermarias com condições deficientes que existem por todo o país colocam em perigo vidas humanas.

O clínico garante que não trabalha sem condições e revela que Vila Franca de Xira está equipada com uma enfermaria de fazer inveja às melhores praças de Espanha. A equipa é constituída por oito profissionais de saúde e é a única no país que possui anestesiologista. O médico salienta ainda que é impossível garantir o salvamento de vidas quando o regulamento tauromáquico obriga apenas à presença de um médico e um enfermeiro em dias de festa.

O especialista falava num seminário sobre tauromaquia realizado nas arcadas da Praça de Toiros Palha Blanco, na terça-feira, 5 de Outubro, em Vila Franca de Xira.

A presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Maria Rosinha, aproveitou para lembrar com orgulho que o auditório das touradas na sua cidade tem aumentado consideravelmente já que a Palha Blanco está colocada no terceiro lugar no ranking nacional dos espaços do género que maior número de espectáculos realiza.

O que alguns apelidaram de “terrorismo de intimidação” em relação à festa também foi abordado. “O Papa já recebeu cartas a queixarem-se que o Padre Vítor Melícias dá a cara pelas touradas” comentou José Potier, presidente da Associação Nacional de Grupos de Forcados, exemplificando desta forma a pressão que os defensores da abolição das touradas colocam nas agendas mediáticas. Uma pressão que leva empresas, instituições e organizações a não querer associar os seus nomes e as marcas ao toiro.

Guilherme Costa, membro da Frente de Acção Pró-Taurina, disse ser necessário apostar numa comunicação profissional para a divulgação do que se passa no meio, lembrando que as touradas foram o espectáculo com mais público em Portugal, logo a seguir ao futebol, e que é necessário que cada vez mais pessoas assinem a petição de Moita Flores em defesa da festa brava.

O aficionado lembra que o seu movimento não procura o protagonismo, mas quer servir como arma de combate para alertar consciências. “Queremos que a festa seja um motivo de orgulho para os portugueses. Compreendemos quem não gosta, mas não compreendemos quem queira acabar com ela”.

A falta de projecção que a arte de tourear tem nos media dominou as discussões. Sentem-se em desvantagem em relação aos movimentos anti-touradas e queixam-se que a comunicação social e os tribunais dão mais atenção às minorias, descartando a realidade tauromáquica portuguesa.

Estamos a dar demasiada importância a quem não a tem” exclamou Raúl Caldeira, crítico taurino e moderador do debate, completando a intervenção de João Ribeiro Telles, presidente do Sindicato Nacional de Toureiros Portugueses, que considera que os ataques não são relevantes, comparando-os a fantasmas. Admite contudo que é necessário um dinamismo e uma postura pró-activa e “não medrosa” com o intuito de mostrar as qualidades da tauromaquia.

O toureiro lamenta que não seja dada a verdadeira importância aos que fazem a festa e diz que conhece muitos que estão a passar dificuldades quando optam fazer desta arte a sua profissão. Os toureiros têm de ser mais acarinhados pelo público, pelos empresários e pela crítica, defendeu.

O Mirante