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sábado, 1 de dezembro de 2018

Sociólogo acusado de instrumentalizar revista científica para defender tauromaquia



Artigo que relaciona "atividade tauromáquica" de cada zona do país com taxa de criminalidade para concluir, "inquestionavelmente", que assistir a touradas não tem consequências negativas em crianças está no centro de uma crise na revista de Sociologia do ISCTE, cujo diretor é acusado de "fraude científica".
Fernanda Câncio


"O respeito pela verdade e pelos factos é essencial. Cada um tem a sua opinião, mas a opinião vale o que vale. E por isso é que apelamos aos estudos científicos e àquilo que a ciência tem para nos ensinar, porque a ciência supera aquilo que cada um acha. A ciência tem um discurso sobre a verdade e tem de ser respeitado."
Este foi o introito que Luís Capucha, professor de Sociologia no ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa e assumido aficionado, fez no Prós & Contras da RTP no qual se debatia o IVA da tauromaquia antes de mencionar "um artigo científico publicado numa revista científica de Sociologia" que permitiria refutar "aquela tese que os anti-taurinos utilizam a respeito das crianças e dos malefícios que a tauromaquia faz às crianças." Para tal, explicou, "os autores cruzaram o índice de atividade tauromáquica com o índice de criminalidade e de poder de compra, para ir ver se há alguma relação entre a violência e a presença da tauromaquia e se há ou não alguma relação entre o desenvolvimento e a tauromaquia."
E há?, perguntou a moderadora. Capucha, que vive em Vila Franca de Xira, um concelho ribatejano conhecido pela atividade tauromáquica, e é desde 2016 presidente da Associação de Tertúlias Tauromáquicas de Portugal, foi taxativo: "Não há relação nenhuma. Se a tese dos antitaurinos fosse verdadeira, nós não conseguiríamos viver nos nossos concelhos, porque seriam tão violentos, tão mais violentos que em todos os outros sítios, que ninguém conseguiria sobreviver. Portanto esse argumento é completamente falacioso.
"Se a tese dos antitaurinos fosse verdadeira, nós não conseguiríamos viver nos nossos concelhos, porque seriam tão violentos, tão mais violentos que em todos os outros sítios, que ninguém conseguiria sobreviver. Portanto esse argumento é completamente falacioso."
Ninguém perguntou qual a revista que publicara o artigo e quem são os autores; o mesmo tinha sucedido três dias antes na SICN, num debate versando o mesmo assunto e no qual o sociólogo tinha citado o dito estudo. Assim, Capucha não teve de esclarecer ser um dos autores e diretor da revista que o publicara -- a Sociologia, Problemas e Práticas, revista do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE.
Questionado pelo DN sobre o motivo pelo qual não assumiu a paternidade do artigo nem o facto de dirigir a revista que o publicou, o sociólogo, cujos "principais temas de pesquisa", de acordo com o seu currículo no
 site do ISCTE, "são as políticas de luta contra a pobreza e a exclusão social, as políticas sociais, as políticas de educação e de formação, as culturas populares, a reabilitação de pessoas com deficiência e as metodologias de planeamento e avaliação", tendo desempenhado vários cargos públicos (diretor-geral do Departamento de Estudos, Prospetiva e Planeamento do Ministério do Trabalho e Solidariedade Social de 1998-2001; diretor-geral da Direção-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular do Ministério da Educação de 2006 a 2008; presidente da Agência Nacional para a Qualificação, responsável pelo Programa Novas Oportunidades, de 2008-2011; membro do Comité de Emprego da União Europeia), diz que "a questão da autoria era irrelevante naquele contexto e ninguém perguntou."

Artigos publicados e despublicados

As coincidências não ficam por aqui. Menos de duas horas após o final do P&C, ou seja, perto da uma da manhã de terça 20 de novembro, vários sociólogos que haviam submetido artigos para publicação na revista em causa, que sai três vezes por ano, receberam um email no qual eram notificados de que o seu artigo fora publicado on line, "ahead of print", ou seja, em pré-publicação, antes da edição impressa.
De facto, no site da revista encontraram vários artigos publicados, com data de 15 de novembro. Entre eles, aquele que o diretor referira na TV nos debates de 16 e 19 como tendo sido "publicado numa revista científica" -- Tauromaquia, Violência e Desenvolvimento - Opiniões e Evidências -- no qual consta como o primeiro de três autores.
Mas aquilo que à partida pareceria uma boa surpresa para os destinatários do mail - alguns tinham submetido os artigos há mais de um ano e as publicações fazem falta no curriculum e são relevantes para concursos e candidaturas - causou perplexidade e indignação.
Menos de duas horas após o final do Prós
Não só por os autores terem sido avisados cinco dias após a publicação, mas sobretudo porque ser publicado numa revista científica indexada internacionalmente, como é o caso desta, implica um sistema de certificação e verificação que se processa através de "revisão por pares", ou seja, especialistas da mesma área: os artigos são enviados, sem identificação dos autores, para outros cientistas, que os apreciam e fazem reparos ou sugestões que por sua vez seguem, também sem referência à identidade de quem os fez, para os autores, para que estes procedam aos ajustes e correções necessários.
Chama-se a este procedimento "double blind", ou seja, "cegueira dupla", porque uns não sabem quem são os outros, e é considerado fundamental na credibilização da divulgação científica. Acrescia que os artigos em causa foram colocados on line sem revisão de texto nem formatação final, ou seja, estavam em formato "manuscrito", apresentando até "marcas de revisão, gralhas e outros erros", segundo autores.
Considerando que a publicação sem peer review punha em causa a integridade científica dos artigos e a credibilidade da revista, vários autores enviaram, na quarta 21, um "pedido de esclarecimento formal" à direção editorial da revista. Neste, perguntavam se os artigos tinham sido alvo de revisão científica, por que motivo não tinham sido notificados de que os artigos tinham sido aceites para publicação e não tinham tido ocasião de fazer uma revisão final de texto, e, por fim, como funciona afinal o sistema de revisão científica da revista.
Na sexta 23, os autores do pedido de explicações foram notificados de que os artigos tinham sido retirados. A justificação foi de que não estavam "devidamente formatados", adiantando que "logo que estejam devidamente formatados todos os artigos, caso os autores explicitamente não se oponham, voltaremos a editá-los no prelo." As perguntas não foram respondidas.
Considerando que a publicação sem revisão por pares punha em causa a integridade científica dos artigos e a credibilidade da revista, vários autores enviaram, na quarta 21, um "pedido de esclarecimento formal" à direção editorial da revista, perguntando se os artigos tinham sido alvo de revisão científica, por que motivo não tinham sido notificados de que os artigos tinham sido aceites para publicação. Dois dias depois os artigos foram retirados.
Ao DN, porém, Luís Capucha esclareceu, por escrito, qual o sistema de revisão científica em vigor na revista: "Quando um artigo é submetido, ele é analisado pelo Conselho de Redação (CR) que, de três uma: ou decide aceitar; ou remete para revisão por parte de dois ou três peritos, ou rejeita. No segundo caso, o único que se tem verificado, há peritos convidados a rever que não estão disponíveis, sendo por isso necessário convidar outros. Os pareceres podem demorar algum tempo a chegar, embora a revista automaticamente emita reforço do pedido de revisão após três semanas de espera. Os pareceres dos dois ou três peritos podem ou não ser coincidentes, e podem ser, genericamente, do seguinte tipo: publicável como está; publicável com pequenas alterações, que são especificadas; publicável com grandes alterações, também especificadas; não publicável, com a devida justificação."
Nos casos em que os pareceres "são no sentido de "publicável"", explica Capucha, "com pequenas ou com grandes alterações, as recomendações dos peritos são enviadas aos autores, que decidem se querem ou não proceder às alterações. Se o fizerem, submetem novamente o artigo, que é reenviado aos peritos para verificar a conformidade. Nos casos em que estes não se dão por satisfeitos, normalmente o CR rejeita os artigos. Nos casos em que recomendam a publicação, o CR decide geralmente aprovar."
Mas, sublinha o atual responsável da revista, "A última palavra é sempre do Diretor e do CR, que têm em conta os pareceres dos peritos revisores. De todas as rejeições, como das aceitações, é dado conhecimento aos autores."
Uma vez aprovado, prossegue Capucha, "o artigo fica a aguardar a sua vez para ser publicado. Por exemplo, podemos estar neste mês a aprovar artigos que só terão lugar num número a publicar em 2020. Por isso se criou, no âmbito da política de ciência aberta, este procedimento do Ahead of Print. No fundo, o artigo está aceite, não está definitivamente publicado num número da revista, mas pode ser acedido e entrar no circuito de divulgação da ciência."
Assim, explica, "o que foi colocado on line, em Ahead of Print (no Prelo) foram os artigos que estavam aprovados na data da última reunião do Conselho de Redação, alguns dos quais poderão só vir a ser editados na versão definitiva em 2020."

Regras da revista violadas?

Sobre a existência ou não de revisão científica de todos os artigos publicados "ahead of print", porém, Luís Capucha não é claro: "Se os autores não receberam indicações de peer review (revisão pelos pares), foi porque os seus artigos foram aceites para publicação sem sugestões de correção. Com a mensagem recebida no dia que refere [20 de novembro], os que não sabiam ficaram a saber que o seu artigo tinha sido aceite para publicação, numa data ainda a determinar pelo Conselho de Redação em função da data de aprovação e de critérios editoriais como, por exemplo, a temática que abordam. Embora o Diretor tenha a autoridade suficiente para aprovar artigos, nenhum, no meu mandato ou no anterior, que eu saiba, foi aprovado sem a devida revisão pelos pares."
A utilização do condicional por Luís Capucha implica que não sabe se os artigos publicados on line tiveram ou não revisão científica; ora, nesse caso, como poderia ter decidido publicá-los?E como pode, sendo diretor, alegar não saber? É a editoria da revista que faz a ponte entre autores e "árbitros", e, como o próprio Capucha explicou ao DN - "A última palavra é sempre do Diretor e do CR, que têm em conta os pareceres dos peritos revisores. De todas as rejeições, como das aceitações, é dado conhecimento aos autores" -- a decisão de publicar os artigos depende do feed back dos revisores científicos. Logo, de acordo com as regras, não poderia ter decidido publicar os artigos sem conhecer as revisões.
E, como os membros da academia contactados pelo DN certificam, não só é raríssimo não haver sugestões de correção ou quaisquer observações, como mesmo que fosse o caso os autores receberiam sempre a notificação da revisão.
"O que os senhores dizem que "provaram" não podia ser sequer testado com os indicadores que escolheram (que raio de referees [revisores científicos] deixam isto passar em claro?). Instrumentaliza-se a sociologia e uma revista de que se é diretor para fazer valer um ponto de vista interessado."
Ora vários dos artigos publicados no dia 15 de novembro, "ahead of print", foram submetidos para integrar um número temático da revista sobre questões de família e género. Esse número tem duas editoras "convidadas" - Karin Wall, diretora do Instituto de Ciências Sociais, e Maria das Dores Guerreiro, anterior diretora da revista e atual vice-reitora do ISCTE. A primeira admitiu ao DN que o processo de revisão científica dos artigos em causa ainda não está terminado, ou seja, não havia de facto ainda peer reviews desses artigos.
Além disso, certifica Wall, "os autores recebem sempre um feed back da revisão, tinham de ser notificados". Sobre as circunstâncias da publicação, prefere não se alongar: "Não soube, não fui avisada antes. Esta é uma revista muito importante para a comunidade científica, que prezo muito. Confio no ISCTE e no Centro de Sociologia para resolverem a questão."
O DN não teve possibilidade de confrontar Luís Capucha com esta informação, já que este não voltou a responder a mails ou mensagens ou a atender chamadas do jornal após sexta 23.
"Não soube da publicação, não fui avisada antes. Esta é uma revista muito importante para a comunidade científica, que prezo muito. Confio no ISCTE e no Centro de Sociologia para resolverem a questão."
Nesse dia o sociólogo tinha acabado por reconhecer, em conversa telefónica, que "publicar os artigos daquela forma pode ser considerado um lapso", e comprometeu-se a enviar ao DN a revisão "por pares" do artigo de que é autor, assim como a especificar a data da sua aprovação para publicação e de quem foi essa decisão. Nas respostas escritas, antes dessa conversa, tinha adiantado que "a revisão pelos pares indicou que o artigo era publicável com alterações significativas. Foram realizadas, e os revisores ter-se-ão dado por satisfeitos, porque a indicação que recebi depois é que o artigo, na versão revista, foi aprovado" mas declarou não poder disponibilizá-la alegando que "não é possível ter acesso às revisões, dados os processos de "double blind review".
Apesar de ter sido relembrado várias vezes do compromisso de envio da peer review, Luís Capucha não a disponibilizou, nem esclareceu a data em que o artigo foi aprovado para publicação nem de quem foi a aprovação.

"Artigo é uma fraude científica"

A existência de revisão científica do artigo que Capucha assina em co-autoria com Luís Pereira e Tiago Tavares (identificados, respetivamente, como "mestre em Economia Política" e "mestre em Finanças") e a identificação de quem o aprovou para publicação tem particular relevo porque sociólogos contactados pelo DN - a maioria preferindo não ser identificada - não têm dúvidas em classificar as correlações estabelecidas no artigo como "sem pés nem cabeça" e "não permitindo tirar qualquer conclusão, para um lado ou para outro", para além de se espantarem com o tom belicoso - há referência repetida a "argumentos dos antitaurinos" -- e com a irredutibilidade das conclusões.
Há mesmo quem caracterize o artigo como "travesti de ciência" e "fraude científica". Neste último caso está João Sedas Nunes, professor no departamento de Sociologia da Universidade Nova.
Sedas Nunes reagiu logo no dia 20, no Facebook, à tese expendida por Capucha no Prós & Contras: "O que os senhores dizem que "provaram" não podia ser sequer testado com os indicadores que escolheram (que raio de referees[revisores científicos] deixam isto passar em claro?). Instrumentaliza-se a sociologia e uma revista de que se é diretor para fazer valer um ponto de vista interessado." Voltou à carga a 23 de novembro, ao partilhar um artigo de António Guerreiro, no Público, intitulado "O Púlpito dos charlatões", e no qual o articulista refere a participação de Luís Capucha no P&C em termos particularmente duros, descrevendo-o como "o sociólogo, o aficionado, o propagandista e o inimigo do saber, tudo na mesma pessoa", considerando que tal "só na televisão é que é possível."
Comentou Sedas Nunes: "Não é nada de pessoal. É só negócio, o da integridade da sociologia. Quando alguém, de púlpito, puxa dos galões da ciência e da sociologia, omitindo entre o mais que a ciência em que se guarda é a sua própria ciência timbrada na revista de que é diretor, para, com ou sem dolo, faltando grosseiramente à verdade e fazendo tábua-rasa do próprio conhecimento sociológico, propagandear um ponto de vista eminentemente político, torna-se-me imperativo reagir com firmeza. Calar perante a impostura é ser cúmplice da desqualificação pública da Sociologia enquanto ciência que a sua (despudorada) instrumentalização para fins políticos constitui."
"Não é nada de pessoal. É só negócio, o da integridade da sociologia. (...) Calar perante a impostura é ser cúmplice da desqualificação pública da Sociologia enquanto ciência que a sua (despudorada) instrumentalização para fins políticos constitui."
Ao DN, e após ler "até ao fim, com enorme esforço (e bastante irritação)", o artigo em causa, o professor da Nova aprofunda a análise sobre o que classifica como "uma fraude científica nos três níveis em que o juízo se pode realizar".
E elenca: "O epistemológico -- se, como os autores esclarecem, a questão é apenas mostrar que um certo ponto de vista político é uma mera opinião sem fundamento, então a prova que realiza e a conclusão que produz inscrevem-se em exclusivo no espaço das asserções políticas (não no das científicas); Teórico -- sendo quase omisso quanto a teoria, quando lhe recorre abusa. Nada nas teorias da socialização que são invocadas autoriza "afirmar que se no passado as crianças tivessem sido afetadas pelo contacto com a violência das festas taurinas e com as suas estruturas culturais, supostamente anacrónicas, isso se refletiria nas práticas e representações que são produto das disposições incorporadas e dos processos de socialização dos adultos abrangidos pelos dados estatísticos relativos aos níveis de consumo e às taxas de criminalidade, que não deixariam de as refletir.""
Isto, diz, "já para não notar o absurdo lógico de afirmar uma conjetura - que se entende porque todo o texto está redigido dentro de uma economia de argumentação política em que se dispensa a prova empírica do juízo de facto; metodológico -- nada, mas mesmo nada no conhecimento científico-social - sociológico, antropológico, mas também económico (um dos autores é pelos vistos economista) -, nada, mas mesmo nada do que se sabe dos processos a que o texto se refere permite a conceptualização que os autores elaboram da noção de "mal-estar físico e mental das crianças" e todas as operações de equivalência lógica que essa conceptualização contém."
Porque, frisa, "é preciso não perder de vista (e é fácil perdê-lo) que a "criminalidade" é, no modelo de estudo construído, no fundo indicador de perturbação do "bem-estar físico e mental das crianças envolvidas nos espetáculos tauromáquicos e representações associadas, bem como com o bem-estar mental e emocional das crianças que como espetadores estão expostas à violência das touradas" e "o seu potencial efeito no desenvolvimento das crianças." Por outras palavras, a "criminalidade" mediria a perturbação do bem-estar físico e mental das crianças."
A "criminalidade" é, no modelo de estudo construído, no fundo indicador de perturbação do "bem-estar físico e mental das crianças envolvidas nos espetáculos tauromáquicos, bem como com o bem-estar mental e emocional das crianças que como espetadores estão expostas à violência das touradas". Por outras palavras, a "criminalidade" mediria a perturbação do bem-estar físico e mental das crianças. Como é que se chega a esta indexação? Através de um conjunto de sucessivas conexões articuladas sem qualquer base teórica, empírica ou sequer lógica."
E Sedas Nunes pergunta: "Como é que se chega a esta indexação? Através de um conjunto de sucessivas conexões articuladas sem qualquer base teórica, empírica ou sequer lógica: a) primeiro, sintetiza-se aquelas premissas na seguinte: que a experiência taurina "tem efeitos psicológicos negativos para o crescimento psicologicamente equilibrado das crianças"; b) em segundo lugar, transformam-se estes efeitos em "violência", e especificamente em violência não como experiência mas enquanto conduta/prática, quer dizer, afirma-se que uma criança exposta a violência e, como resultado disso, sujeita a "perturbações psicológicas" será sujeito de violência; c) em terceiro lugar, por fim a "violência" transmuda em "criminalidade.""
Para tornar claro o que vê como uma cadeia de conexões sem sentido, o sociólogo vira-a ao contrário: "Vendo estas operações ilógicas inversamente, para os autores, a criminalidade é um indicador de violência, que, por seu lado, é uma expressão rigorosa de "perturbações psicológicas", que, finalmente, é o estado consolidado na idade adulta do "mal-estar infantil", tudo isto enquanto presumem o velho princípio (igualmente muito discutível) da economia ceteris paribus [tudo o resto permanecendo constante] para concluírem que a "demonstração de ausência de correlação desmente os argumentos antitaurinos de forma inquestionável" (isto aqui não é uma simples muleta retórica do argumento, é o remate coerente de um objeto que, de facto, participa de uma luta política entre prós e anti-taurinos, ao menos tal como ela é imaginada por aqueles)."

A "leviandade" da ONU

De relevar, por outro lado, que na literatura citada pelo artigo não figura qualquer estudo especificamente sobre o objeto que este supostamente visa analisar - o efeito nas crianças da assistência a espetáculos taurinos. Poder-se-á concluir dessa ausência de referência que esses estudos não existem, mas há pelo menos quatro, comissionados, em 1999, pelo então Defensor del Menor de la Comunidad de Madrid, Javier Urra, a peritos - incluindo sociólogos -- de várias universidades espanholas.
Em causa neste pedido de investigação estava a decisão, tomada em 1998, na Catalunha, de proibir a assistência de touradas a menores de 14 (em 2010 a região, por decisão do parlamento, proibiu as touradas, na senda da decisão no mesmo sentido das Canárias, em 1991; a decisão foi em 2016 considerada sem efeito pelo Tribunal Constitucional espanhol).
Os estudos foram coordenados por Enrique Echeburúa, catedrático de Psicologia da Universidade do País Basco; pelo menos um deles viria a ser publicado autonomamente em 2004. E se concluem pela inexistência de provas científicas de que assistir àquele tipo de espetáculos cause, em geral, "uma interferência emocional negativa nas crianças", não são inteiramente tranquilizadores, alertando para que a conclusão só vale "quando se trate de crianças psicologicamente sãs e que assistam a esses espetáculos esporadicamente, voluntariamente e acompanhadas de adultos que tenham uma atitude positiva face à corrida."
Uma conclusão dos estudos é de que a maioria das crianças de uma das amostras - 240, entre os oito e os 14 anos - não gostavam de touradas e 60% achavam-nas "violentas" e entre 30 e 50% consideravam-nas maus tratos aos animais, sendo 66% contra a morte do touro.
Reconhece-se porém que "em alguns casos as crianças podem mostrar algumas manifestações emocionais de nervosismo e preocupação, especialmente quando o animal demora muito tempo a morrer [em Espanha os touros são mortos na arena] ou quando há uma colhida, mas estes sintomas são transitórios e não têm mais importância que as reações experimentadas depois de assistir a um filme de terror na TV." E que pode haver perigo para crianças "com uma psicopatologia clínica específica - transtornos de ansiedade e depressão --, assim como para aqueles que possuam maior vulnerabilidade (muito sensíveis ou muito impulsivos), que não devem assistir às corridas. Tão-pouco são aconselháveis a crianças que tenham uma atitude ecológica extrema de proteção dos animais." Uma conclusão dos estudos é de que a maioria das crianças de uma das amostras - 240, entre os oito e os 14 anos - não gostavam de touradas e 60% achavam-nas "violentas" e entre 30 e 50% consideravam-nas maus tratos aos animais, sendo 66% contra a morte do touro.
Existe ainda pelo menos um "comentário técnico" da Ordem dos Psicólogos Portugueses, intitulado "Impacto Psicológico da Exposição das Crianças aos Eventos Tauromáquicos", datado de junho de 2016, efetuado a pedido do Partido Animais e Natureza, no contexto do debate sobre o projeto de lei deste partido, apresentado em 2016, visando proibir a assistência de menores de 18 anos a touradas.
"O Comité da ONU ao recomendar, levianamente, medidas de sensibilização sobre a violência física e mental associada às touradas [recomendação de 2014], abre caminho a um possível ataque à diversidade cultural que a UNESCO tanto defende, ao mesmo tempo que atenta contra a dignidade e continuidade das "nossas" práticas culturais."
Curiosamente, no site do parlamento, e presume-se que a propósito da discussão do citado projeto de lei do PAN, encontra-se não só o resumo dos estudos espanhóis citados mas também uma versão anterior, não datada e mais abreviada, do artigo de Capucha, Pereira e Tavares. Nesta, porém, o primeiro autor é Luís Pereira (autor de uma dissertação de mestrado orientada por Capucha, no ISCTE, em 2010 na qual correlaciona o índice de atividade tauromáquica com o índice de desenvolvimento, concluindo com um manifesto pela reintrodução no país da corrida de morte: "Os aficionados portugueses das corridas integrais, por uma questão de justiça, devem poder exercer um direito cultural, ou seja, devem poder participar neste tipo de rituais em Portugal. (...) É tempo de devolver aos portugueses a liberdade de legalmente assistirem na sua terra a uma representação cultural na íntegra e não só a um mero simulacro. Na corrida de toiros os animais bravos são os adversários dos homens, num combate ritualizado entre a cultura e a natureza, que em regra e com regras, deve finalizar com o Homem dominando as forças da natureza, ato este representado pela morte do touro no lugar da lide, a arena.").
Com o título "Atividade Tauromáquica Versus Indicadores de Violência e Desenvolvimento", o artigo encontrado no site do parlamento estabelece o mesmo tipo de correlação da versão posterior e tem a mesma conclusão: "A demonstração de ausência de correlação desmente os argumentos anti-taurinos de forma inquestionável." Termina com um ataque à ONU: "O Comité da ONU ao recomendar, levianamente, medidas de sensibilização sobre a violência física e mental associada às touradas [recomendação de 2014], abre caminho a um possível ataque à diversidade cultural que a UNESCO tanto defende, ao mesmo tempo que atenta contra a dignidade e continuidade das "nossas" práticas culturais. Desconhece-se quais as medidas de sensibilização que o Comité pretende implementar, mas sejam quais forem é obrigatório que os Direitos Fundamentais das comunidades, Constitucionalmente protegidos, sejam respeitados e que os valores culturais possam continuar a ser transmitidos."

A "paixão inescapável" da afición

A Convenção da Unesco para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial foi, precisamente, invocada na candidatura, em 2017, de um projeto liderado por Luís Capucha ao Orçamento Participativo com o objetivo de "inserir a cultura tauromáquica na lista de Património Cultural Imaterial de Portugal".O projeto é um dos 38 aprovados através de votação pública, recebendo uma dotação de 200 mil euros, e foi objeto de uma encomenda ao Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE, tendo Luís Capucha sido nomeado o coordenador académico do mesmo.
De acordo com o próprio, em entrevista ao jornal i, "o ISCTE-IUL recebeu uma encomenda da Direção Geral do Património Cultural no sentido de executar os trabalhos conducentes ao cumprimento do projeto aprovado no quadro do referido Orçamento Participativo. O trabalho, cujo âmbito é estritamente científico, está sediado no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE-IUL".
"Revela um engajamento relevante da sociologia com agendas sociais e políticas específicas e particularistas, bem conotadas ideológica e partidariamente, e uma correspondente desresponsabilização em relação aos grandes problemas sociais das sociedades dos nossos tempos."
O concurso para os bolseiros que trabalharão no projeto decorreu até setembro último, tendo sido contratados quatro investigadores; em outubro, foi notícia uma pergunta do PAN sobre financiamento direto do ISCTE - e portanto público - para a promoção da tauromaquia, baseando-se no contrato assinado pelo instituto para a prossecução do projeto e no qual figuraria uma verba de 10 mil euros, em ajuste direto, para a realização de um documentário sobre o tema. Luís Capucha negou que tal fosse verdade, reputando de "erro" essa menção do contrato e assegurando, em entrevista à Lusa, "o rigor e qualidade científica do CIES neste como noutros projetos" e garantindo que "não há um ponto de vista ou orientação prévia para a recolha de material e elaboração da candidatura, e que as visões contrárias serão incluídas no trabalho que vai olhar para a tauromaquia no seu conjunto, incluindo as diferentes perspetivas a respeito da festa de toiros".
Como já foi dito, o DN não conseguiu voltar a falar com Luís Capucha desde 23 de novembro, pelo que não foi possível confrontá-lo com as escolhas bibliográficas do seu artigo, com as análises de colegas ouvidos pelo DN, com o facto de uma versão anterior do artigo figurar no site do parlamento português ou com a aparência de conflito de interesses na acumulação da promoção de um projeto de defesa da tauromaquia e do lobbying para a aprovação do mesmo com a coordenação científica desse projeto num instituto público.
Em setembro, Capucha escrevera no blogue Café Vila Franca uma reflexão sobre a Sociologia e o seu devir, intitulada "Preocupado com o presente e o futuro da sociologia em Portugal", na qual criticamente refere os temas das bolsas de doutoramento concedidas pela Fundação de Ciência e Tecnologia na área da Sociologia, concluindo: "Esta lista revela um engajamento relevante da sociologia com agendas sociais e políticas específicas e particularistas, bem conotadas ideológica e partidariamente, e uma correspondente desresponsabilização em relação aos grandes problemas sociais das sociedades dos nossos tempos."
não podia deixar de ser "Não poderia deixar de ser um vilafranquense, nem que quisesse. Ser aficionado é trazer consigo uma paixão da qual não se consegue (pelo menos não imagino como) escapar."
Num outro artigo, publicado na revista AntHropológicas (da Universidade Fernando Pessoa), em 2013, Capucha tinha escrito: "Julgo ter aprendido a distanciar-me da visão etnocêntrica com o auxílio da teoria sociológica, mas não podia deixar de ser um vilafranquense, nem que quisesse. Os meus interesses de pesquisa viraram-se para os temas da pobreza, das políticas sociais, do emprego e da educação e para as metodologias de planeamento e avaliação. Mas ser aficionado é trazer consigo uma paixão da qual não se consegue (pelo menos não imagino como) escapar."
O DN também procurou obter de João Sebastião, diretor do Centro de Sociologia do ISCTE, que edita a revista que Luís Capucha dirige, e de Maria das Dores Guerreiro, anterior diretora da revista e atual vice-reitora do instituto, comentários e esclarecimentos sobre esta polémica, tendo sido enviados mails para os dois com perguntas. Ambos estavam, aliás, por iniciativa de Luís Capucha, entre os destinatários das respostas que enviou ao DN a 23 de novembro. Nenhum dos dois académicos respondeu até ao fecho deste texto.》


Fonte:
https://www.dn.pt/pais/interior/sociologo-acusado-de-instrumentalizar-revista-cientifica-para-defender-tauromaquia-10264241.html

quinta-feira, 11 de março de 2010

Festival Taurino a favor da Associação dos Amigos dos Animais gera polémica


Uma tourada nunca pode ser "a favor" dos animais
Apesar da presidente da Associação dos Amigos dos Animais de Vila Franca de Xira, Telma Ferreira, já ter declarado que faz questão de recusar quaisquer verbas provenientes de eventos tauromáquicos, já que tal atitude seria "contrária aos princípios das associações de apoio aos animais" (leia a notícia n'O Mirante), continua a ser anunciado em Vila Franca de Xira um festival taurino "a favor do canil/gatil dos amigos dos animais". O evento estava marcado para o passado dia 28 de Fevereiro, tendo sido cancelado devido à chuva e adiado para 20 de Março. 

Partido pelos Animais e pela Natureza sublinha, uma vez mais, a sua veemente oposição a que uma associação dita de defesa dos animais beneficie do sofrimento destes, apenas por serem de espécies diferentes daqueles a que habitualmente se dedica.

Solicitamos aos promotores da tourada o bom senso e a honestidade de respeitar a posição da presidente da associação e de se abster de anunciar nos seus cartazes um apoio pecuniário insensato e indesejado a uma entidade cujos princípios colidem frontalmente com a actividade por si promovida.

 A empresa "Tauroleve" divulgou hoje o novo cartaz do (também novo) festival que realizará no próximo dia 20 (sábado, às 21h30) na "Palha Blanco", em Vila Franca de Xira, depois de ter ficado anulado, pelo mau tempo, aquele que esteve previsto para o passado dia 28 de Fevereiro.
Este espectáculo, a favor do Canil/Gatil dos Amigos dos Animais, sofreu algumas alterações no cartel, agora definitivamente composto pelos cavaleiros Vitor Ribeiro, Manuel Telles Bastos, Manuel Caetano e Tomás Pinto, pelo matador Luis "Procuna" e pelo novilheiro Nuno Casquinha, bem como pelo Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca de Xira, na estreia do seu novo cabo Ricardo Castelo.

"Os sócios deviam destituir a direcção"
No domingo realiza-se um Festival Tauromáquico a favor da Associação dos Amigos dos Animais de Vila Franca de Xira (AAAVFX). Como é que a Associação Animal vê esta angariação de fundos?
É moralmente indecente aceitar dinheiro da tortura de uns animais para beneficiar outros. Não importa a designação da instituição, se é um talho ou uma associação de defesa dos animais, mas os seus actos. Não se pode aceitar esse dinheiro.
Mas AAAVFX voltou atrás e já não vai aceitar este donativo. E até explicou que só o tinha aceitado para poder construir o novo canil...
As associações são muito bem--intencionadas, mas não são bem geridas. A intenção não chega e falta bom senso.
A direcção da AAAVFX deve então assumir a responsabilidade?
O caso é tão grave que os sócios deviam destituir a direcção. Isto nunca pode acontecer e põe em causa a nossa luta em defesa dos animais. Espero que esta direcção seja substituída por alguém que saiba o que está a fazer. Este caso põe os tauromáquicos do nosso lado, quando eles só defendem alguns animais e torturam outros. Isso dificulta a nossa luta.
As dificuldades económicas justificam a atitude da direcção da AAAVFX?
A Associação Animal compreende o que é viver com dificuldades económicas mas a moral não se compra.

Festival Taurino a favor da Associação dos Amigos dos Animais
2010-01-21  
A Tauroleve e a Associação da Casa dos Forcados Amadores de Vila Franca de Xira, vão organizar em conjunto um Festival Taurino para angariação de receitas, no próximo dia 28 de Fevereiro (Domingo), na Praça de Toiros Palha Blanco em Vila Franca de Xira.
Metade do valor das receitas revertem a favor da Associação dos Amigos dos Animais de Vila Franca de Xira, instituição de utilidade pública desde 1995.
Em comunicado os organizadores afirmam: 
"ao levarmos a efeito este Festival Taurino que beneficia uma Entidade de Defesa dos Animais estamos a dar um importante apoio na construção de um local de abrigo para os muitos animais que a Associação dos Amigos dos Animais tem à sua guarda. Com este evento iremos todos contribuir para que o projecto de construção já existente mas há demasiados anos esquecido por incapacidade financeira de um Canil se torne realidade e assim se consiga criar extraordinárias condições de vivência para centenas de animais diariamente abandonados."
A restante percentagem de lucro reverterá na totalidade a favor da Casa dos Forcados Amadores de Vila Franca de Xira, para apoio aos seus projectos.
Em breve será anunciado o cartaz oficial do Festival, sendo certa a participação do Maestro Victor Mendes e do novilheiro Nuno Casquinha.


24-01-2010
A Tauroleve e a Associação da Casa dos Forcados Amadores de Vila Franca de Xira, estão a organizar um Festival Taurino no dia 28 de Fevereiro, na Praça de Vila Franca de Xira, para angariação de receitas a favor da Associação dos Amigos dos Animais de Vila Franca de Xira.
Refere a organização do espectáculo que 50% do lucro reverterá para a Associação dos Amigos dos Animais de Vila Franca de Xira, de forma a apoiar na construção de um local de abrigo para os animais que a associação tem à sua guarda.

Contactos:
- Tauroleve - Sociedade Tauromáquica Letra da Neta, Lda: tauroleve@gmail.com
info@forcadosdevilafranca.com e cabo@forcadosdevilafranca.com



A Associação dos Amigos dos Animais de Vila Franca de Xira declara que
RECUSA e recusará sempre, qualquer contrapartida financeira de qualquer
iniciativa relacionada com actividades tauromáquicas, nomeadamente do
Festival Taurino a realizar no próximo dia 28 de Fevereiro, em Vila
Franca de Xira.
A Presidente da Direcção,
Maria Telma Ferreira
25 de Janeiro de 2010

Declaração Pública da Associação dos Amigos dos Animais de Vila Franca de Xira
A Associação dos Amigos dos Animais de Vila Franca de Xira (AAAVFX) recusou quaisquer donativos por parte do Festival Taurino, agendado para o próximo dia 28 de Fevereiro em Vila Franca de Xira.Os defensores dos animais de todo o mundo congratulam a AAAVFX pela decisão e encorajam todos a ajudar esta associação, para que possa ajudar mais animais.http://aaa.leziria.com/NIB: 003600489910008053995aamigosanimaisvfx@gmail.com26 de Janeiro de 2010

Chovem críticas a tourada a favor de animais abandonados
Metade da receita será entregue à Associação dos Amigos dos Animais.
No próximo dia 28, realiza-se em Vila Franca de Xira um Festival Taurino, cujas receitas revertem, em parte, para a Associação dos Amigos dos Animais do concelho. A organização não vê "nada de estranho" nesta decisão, mas as críticas não se fizeram esperar.
A organização do Festival Taurino está a cargo da Associação da Casa dos Forcados Amadores de Vila Franca de Xira e conta com o apoio da Tauroleve, empresa concessionária da Praça de Toiros Palha Blanco, que cede gratuitamente o espaço para o evento.
Metade das verbas angariadas reverterá a favor da entidade organizadora (que almeja abrir um espaço museológico) e a outra metade será entregue à Associação dos Amigos dos Animais de Vila Franca de Xira, instituição de utilidade pública desde 1995, que se debate com grandes problemas financeiros e de falta de condições de acolhimento para centenas de animais abandonados.
Este terá sido um dos motivos que deu origem ao festival, de acordo com Vasco Dotti, cabo dos forcados amadores de Vila Franca de Xira. "Sei das dificuldades com que a associação se debate todos os anos e que ainda não conseguiu construir um canil de raiz, devido à falta de verbas. Por isso, apresentámos esta ideia aos responsáveis da associação, que a aceitaram", explicou, ao JN.
Associação já não quer verbas
Na sequência, as três entidades assinaram um protocolo e os preparativos arrancaram, estando já confirmada a presença do maestro Victor Mendes e do novilheiro Nuno Casquinha. Só que a Associação dos Amigos dos Animais voltou atrás com a palavra.
Ao JN, Maria Telma Ferreira, presidente da Direcção, referiu que a associação foi bastante criticada por entidades congéneres e particulares e, por isso, decidiram não aceitar o dinheiro. Em comunicado divulgado na última semana, a mesma responsável afirma que associação "recusa e recusará, sempre qualquer contrapartida financeira de qualquer iniciativa relacionada com actividades tauromáquicas, nomeadamente este Festival Taurino. Mas Vasco Dotti garante que o festival vai realizar-se tal como sempre esteve planeado, até porque há um protocolo assinado e o material publicitário está já na gráfica. A divulgação do evento foi já feita na imprensa e nos sites ligados à tauromaquia, tanto em Portugal como em Espanha.
"Não entendo o porquê das críticas. As pessoas ligadas à tauromaquia também se preocupam com os animais. E há muitos defensores dos animais que são aficionados", frisa Vasco Dotti.
Opinião diferente tem, por exemplo, a Associação Animal. "A ser verdade que essa instituição vai beneficiar de um festival que tortura animais, consideramos que tal é moralmente condenável", diz Rita Silva, a presidente. "Sabemos as dificuldades pelas quais passam as associações, mas isso seria o mesmo que uma associação de protecção de crianças receber dinheiro de uma associação de pedófilos"


Festival Taurino a favor da Associação dos Amigos dos Animais gera polémica
4/2/2010
Tauroleve e a Associação da Casa dos Forcados Amadores de Vila Franca de Xira uniram-se numa iniciativa conjunta de angariação de fundos para a Associação dos Amigos dos Animais de Vila Franca de Xira construir um canil.

A associação aceitou, mas veio agora recusar os fundos por pressão de várias entidades de defesa dos direitos dos animais(...)

A Associação Animal considerou porém que a aceitação da verba seria “moralmente condenável”. Segundo a presidente Rita Silva, apesar das dificuldades pelas quais passam as associações, “isso seria o mesmo que uma associação de protecção de crianças receber dinheiro de uma associação de pedófilos”....


Receita para construir um novo canil foi recusada 
Festival Taurino a favor da Associação dos Amigos dos Animais gera polémica 
Edição de 04-02-2010
Tauroleve e a Associação da Casa dos Forcados Amadores de Vila Franca de Xira uniram-se numa iniciativa conjunta de angariação de fundos para a   Associação dos Amigos dos Animais de Vila Franca de Xira construir um canil. A associação aceitou, mas veio agora recusar os fundos por pressão de várias entidades de defesa dos direitos dos animais.


A Associação dos Amigos dos Animais de Vila Franca de Xira vai recusar o donativo proveniente do Festival Taurino - agendado para o próximo dia 28 de Fevereiro, na Praça de Touros Palha Blanco, em Vila Franca de Xira - ao contrário do que tinha decidido inicialmente.
A polémica instalou-se depois da associação ter aceite receber o donativo da iniciativa conjunta da Tauroleve e Associação da Casa dos Forcados Amadores de Vila Franca de Xira, que tinha como objectivo doar 50 por cento dos lucros para a Associação dos Amigos dos Animais de Vila Franca de Xira, que iria utilizar essa verba para construir o tão ansiado canil para os muitos animais abandonados no concelho de Vila Franca de Xira.

Os fundos provenientes de um festival taurino geraram de imediato a revolta de várias associações nacionais (e até mesmo internacionais) de defesa dos direitos dos animais, que pressionaram a associação a recusar a verba e agendaram uma reunião de urgência, no dia 27 de Janeiro. A reunião foi agendada a pedido do Partido pelos Animais (Lisboa), na Junta de Freguesia, mas a entidade não compareceu à reunião agendada, nem nenhuma das associações nacionais de protecção aos animais que se insurgiu contra a iniciativa.

A presidente da Associação dos Amigos dos Animais de Vila Franca de Xira emitiu de imediato um comunicado, através do site na Internet, esclarecendo que a direcção “recusa e recusará, sempre qualquer contrapartida financeira de qualquer iniciativa relacionada com actividades tauromáquicas, nomeadamente este Festival Taurino”. Telma Ferreira explicou a O MIRANTE que tudo não passou de “um acto irreflectido, feito com a melhor das intenções. A direcção da associação viu neste donativo a solução para uma questão que se arrasta há muitos anos e inocentemente pensámos que esta verba poderia resolver o problema porque o prazo para construção do canil estava ultrapassado, sem pensar na proveniência”, explica.

A câmara municipal cedeu um terreno com 2500 metros quadrados para construção do canil a 23 de Junho de 2004, em Castanheira do Ribatejo, tendo a associação o prazo de cinco anos para construir o abrigo para os animais. “Compreendo que foi uma atitude precipitada, mas pensámos que íamos ficar sem o terreno e nem reflectimos sobre as consequências de aceitar este donativo. Era algo que para nós não tinha nada a ver com os toiros de morte. Era apenas uma festa de beneficência, mas entendo agora o erro que cometemos e obviamente não podemos aceitar essa receita, que é contrária aos princípios das associações de apoio aos animais”, sublinha a presidente.

A Associação Animal considerou porém que a aceitação da verba seria “moralmente condenável”. Segundo a presidente Rita Silva, apesar das dificuldades pelas quais passam as associações, “isso seria o mesmo que uma associação de protecção de crianças receber dinheiro de uma associação de pedófilos”.
Apesar de aceitar as acusações, Telma Ferreira critica a atitude das entidades que apontaram o dedo à atitude da associação “mas não apareceram na reunião para ajudar a criar alternativas para a construção do canil”.

Ana Câncio, da escola de toureio José Falcão, lamenta a decisão e lastima “as campanhas terroristas de intimidação e as pressões” de que foi alvo da Associação dos Amigos dos Animais de Vila Franca de Xira. “Há cães e gatos abandonados a proliferar pelas ruas de Vila Franca de Xira e tenho pena que a associação não tenha conseguido superar esta prova de força, mas acho que já seria de esperar”, explica. “Em relação ao festival taurino faz parte da nossa tradição e penso que o problema é só porque a vida do touro acaba na arena. Porque muitos outros animais, como vacas leiteiras, sofrem durante toda a vida uma crueldade constante e diária e nós não vemos este mediatismo”, realça com convicção.

Vasco Dotti, dos Forcados Amadores de Vila Franca de Xira, garante que o espectáculo não vai ser cancelado e adianta que já estão confirmadas as presenças do Maestro Victor Mendes e do novilheiro Nuno Casquinha. “O que tentámos fazer foi uma festa de beneficência para resolver os problemas da associação”, justifica. O forcado adianta ainda que a intenção era “lançar a primeira pedra do projecto do canil, o qual teve grande adesão por parte dos ganaderos”.
Com a recusa da verba do Festival Taurino, mantém-se o problema de falta de financiamento para a construção do canil, cujo prazo já foi ultrapassado. “Este é um problema grave e neste momento precisamos muito que surja outro benemérito que nos ajude a tornar este sonho em realidade”, sublinha a presidente da Associação dos Amigos dos Animais.

Entretanto a Câmara de Vila Franca de Xira já fez saber que mantém a total disponibilidade para perpetuar a cedência do terreno, para o fim ao qual foi destinado. 
O MIRANTE tentou contactar o Partido Pelos Animais, mas não obteve qualquer resposta até ao fecho desta edição.


Associação dos Amigos dos Animais de Vila Franca de Xira reitera que não aceita verbas da iniciativa 
Receitas do Festival Taurino ficam à guarda da Junta de Freguesia 
As receitas do Festival Taurino, que inicialmente ia realizar-se para   ajudar a Associação dos Amigos dos Animais de Vila Franca de Xira a construir um canil, vão ser entregues à junta de freguesia da cidade. A presidente da direcção continua a recusar receber dinheiro de espectáculos tauromáquicos.


Metade das receitas provenientes do Festival Taurino que está a ser organizado pela Casa dos Forcados de Vila Franca de Xira e a Tauroleve a decorrer no próximo domingo, 28 de Fevereiro, vão ficar à guarda da Junta de Freguesia de Vila Franca de Xira para serem entregues à Associação dos Amigos dos Animais de Vila Franca de Xira (AAAVFX), de acordo com o protocolo assinado entre as partes.
A iniciativa tinha por objectivo doar esses fundos à associação para construção de um canil, mas depois da polémica gerada por várias associações de protecção de animais em todo o mundo, como O MIRANTE nocitiou, a instituição voltou atrás na decisão e recusou receber o donativo proveniente de uma corrida de touros. Posição que continua a manter.
Apesar de ainda constar no cartaz que o evento se realiza a favor da AAAVFX, a presidente Telma Ferreira, garante que a entidade “não vai receber nem um cêntimo proveniente desta iniciativa” e que já comunicou a decisão à comunicação social, às entidades organizadoras do Festival Taurino e à presidente da Câmara de Vila Franca de Xira.
Conforme já havia adiantado, a responsável da associação explica que a “decisão de recusa assenta essencialmente numa posição reflectida sobre a imoralidade da aceitação de verbas provenientes de actividades que envolvam o sofrimento e a indignidade animal”. Telma Ferreira acrescenta ainda que esta recusa “se estende a quaisquer dividendos de quaisquer iniciativas relacionadas com actividades tauromáquicas”.
Esta tomada de posição levou os organizadores do espectáculo a decidir entregar a quantia destinada à AAAVFX à Junta de Freguesia, “que ficará com o dever de libertar esse mesmo montante no apoio à construção do sonhado canil”, lê-se na nota de imprensa. Vasco Dotti, dos Forcados Amadores de Vila Franca de Xira, explica que metade da “verba apurada irá ser aplicada conforme ficou estipulado no protocolo através da intervenção da Junta de Freguesia de Vila Franca de Xira, instituição de grande credibilidade e que aceitou pertencer ao conjunto de entidades organizadoras deste espectáculo”.
Também o presidente da Junta de Freguesia esclarece que o protocolo ainda não foi anulado pela associação e por isso está disposto a honrar o compromisso. “Há mais parceiros envolvidos e enquanto o protocolo não for anulado, vamos manter o que foi escrito”.
A organização do evento informa ainda que as “ameaças e ofensas que direcção da Associação dos Amigos dos Animais de Vila Franca de Xira, a Casa dos Forcados de Vila Franca de Xira e a Tauroleve através dos seus representantes sofreram implicaram uma cada vez maior vontade de sucesso e de afirmação perante elementos integrantes de grupos amigos dos animais que até ao dia de hoje não se dignificaram a ofertar à AAAVFX qualquer verba mínima que seja, preocupando-se unicamente com as suas ideologias mas nada com os animais que necessitam de acolhimento e de condições de sobrevivência”.
O Festival Taurino realiza-se no próximo dia 28 de Fevereiro pelas 16h00, na Praça de Touros Palha Blanco e conta com a presença dos cavaleiros Vítor Ribeiro, Ribeiro Telles, Manuel Caetano e Francisco Palha, do espada Vítor Mendes, o novilheiro Nuno Casquinha e dos Forcados Amadores de Vila Franca de Xira.


QUINTA-FEIRA, 04 DE FEVEREIRO DE 2010
FESTIVAL TAURINO A FAVOR DA LIGA DOS AMIGOS DOS ANIMAIS DE VILA FRANCA
Nota de Imprensa da Tauroleve sobre o festival: “No próximo dia 28 de Fevereiro após os festejos de Carnaval, a Praça de Toiros Palha Blanco reabrirá as suas portas para a realização de um marcante Festival Taurino de Beneficência a favor da Liga dos Amigos dos Animais de Vila Franca de Xira. Este espectáculo será marcante porque possibilitará a obtenção de receitas desejadas para a tão necessária construção de um Canil que albergará os animais necessitados e desprotegidos não só pela cidade mas também pelo concelho vilafranquense. Não ficando indiferente às pressões nunca imagináveis por nós sentidas nos últimos dias, que a única coisa que criou foi mais vontade de sucesso para este projecto, temos firme que a vontade e força de todos os aficionados e público em geral será determinante e extremamente necessária para mostrar aos olhos do mundo que somos HOMENS e MULHERES de crenças, vontades, desejos e sentimentos que nunca nos deixaremos derrubar por gente pouco educada e absorvida por comportamentos mesquinhos que só se interessam por polémicas mas pouco pelos animais necessitados. Mesmo tendo a Liga dos Amigos dos Animais de Vila Franca de Xira após ameaças sentidas pela sua direcção através de comportamentos inaceitáveis numa sociedade dita democrática afirmado publicamente que se desligava deste projecto mesmo existindo um protocolo de cooperação assinado, cabe-nos informar que talvez por sermos AFICIONADOS e HOMENS de verdade honraremos os nossos compromissos com os verdadeiros necessitados: os cães e gatos abandonados. Vamos encher a Palha Blanco e publicamente descriminar as contas deste Festival e mostrar a obra que sonhamos. VIVA A TAUROMAQUIA. VIVA PORTUGAL CASA DOS FORCADOS AMADORES DE VILA FRANCA DE XIRA EMPRESA TAUROLEVE Vila Franca de Xira, Dia 3 de Fevereiro de 2010”

VILA FRANCA DE XIRA 25-02-10
Tourada para ajudar animais está a gerar polémica
Grupo de forcados propôs à Associação dos Amigos dos Animais a realização de uma tourada para angariar fundos, mas pressões levaram a instituição a recusar
A tourada para angariar fundos para a construção de um canil da Associação dos Amigos dos Animais de Vila Franca de Xira (AAAVFX) que causou polémica realiza-se no domingo. Mas parece não haver consenso quanto ao destino das verbas. É que enquanto a AAAVFX se nega a receber o dinheiro, a Associação da Casa dos Forcados Amadores da cidade garante que as verbas serão mesmo usadas na construção do canil.
O desentendimento teve início quando o espectáculo começou a ser divulgado e várias associações nacionais e internacionais de defesa dos animais pressionaram a AAAVFX para esta recusar a ajuda, o que acabou por acontecer. A organização do festival tauromáquico quer doar 50% dos lucros para a construção do canil, ou seja, espera entregar 30 mil euros.
A direcção da AAAVFX, que começou por aceitar a doação, decidiu há cerca de um mês recusar o dinheiro angariado pela tourada. "Agradecemos mas não vamos querer um tostão", garante a presidente da associação, Telma Ferreira. A dirigente confirma que receberam muitos telefonemas a pressionar para que a associação re- cusasse o dinheiro do festival e a oferecer ajuda.
Apesar de a associação recusar o dinheiro, as entidades organizadoras do evento garantem que vão contribuir na mesma para a construção do canil, que já está pendente há cinco anos. "A partir do momento em que assinámos o protocolo vamos fazer o espectáculo e o primeiro objectivo é a construção do canil", defende Ricardo Levezinho, responsável da empresa que gere a praça de touros de Vila Franca de Xira.
No entanto, pode já ter sido encontrada uma solução para fazer chegar o dinheiro ao seu objectivo. Vasco Dotti, dos Forcados Amadores de Vila Franca de Xira, explica que foi proposto à Junta de Freguesia que aceitasse a verba e criasse uma conta específica para construir o canil. Depois caberá à junta "gerir a situação de forma a que o canil seja construído", acrescenta o forcado.
Em cima da mesa parece estar também a hipótese de a asso- ciação aceitar os donativos de-pois da tourada de forma não oficial, refere Vasco Dotti. O elemento dos forcados que sugeriu este evento para ajudar a associação dos amigos dos animais adianta, contudo, que, se o organismo aceitar o dinheiro, irá tornar essa informação pública. Isto porque, "não quero que fiquem dúvidas quanto às verbas", indica.
A directora da AAAVFX confessa que num primeiro momento não pensou nas consequências e que apenas queria encontrar uma solução para os animais abandonados que já não têm lugar no canil da instituição. Mas associações de defesa dos animais já afirmaram que consideram imoral que a AAAVFX aceite dinheiro de um espectáculo como a tourada.
No entanto, o grupo de forcados e a empresa que gere a Praça de Touros Palha Blanco rejeitam as acusações de que não são amigos dos animais. "Que fique claro que nós gostamos de animais", sublinha Vasco Dotti. O forcado diz que até percebe as opiniões contra a tourada, mas deixa claro que não considera que tourear um touro seja "magoar um animal".
FonteDN Portugal



Um festival taurino marcado para as 16h00 na Praça Palha Blanco, em Vila Franca de Xira, tem a originalidade de prever que metade das receitas sejam entregues a uma associação de defesa de animais da cidade que está a enfrentar dificuldades. No entanto, parece difícil que o dinheiro conseguido através de um espectáculo, tradicionalmente condenado pelos activistas dos direitos dos animais, chegue ao destino, pois a associação já veio anunciar que não o pode aceitar. A maioria dos membros recusa associar-se à tourada.

Os organizadores do festival taurino de hoje à tarde prevêem entregar cerca de 30 mil euros. Os bilhetes custam entre 15 euros (geral) e 25 euros (barreira e camarotes) e a Praça Palha Blanco tem uma lotação próxima de quatro mil lugares, pelo que a enchente renderia para cima de 60 mil euros.
Estão confirmadas as presenças dos cavaleiros Vítor Ribeiro, Telles Bastos, Manuel Caetano, Francisco Palha e do amador Tomás Pinto, bem como dos matadores Vítor Mendes e Nuno Casquinha e dos Forcados Amadores de Vila Franca de Xira. Já os animais que podem gerar receitas capazes de garantir a construção de um canil em Vila Franca de Xira são oferecidos pela Associação Portuguesa de Criadores de Touros.
Apesar de a iniciativa ser polémica, não estão previstas manifestações frente à praça de touros de Vila Franca de Xira.
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Correio da Manhã - ‎25 de Fev de 2010‎
Realiza-se no domingo, às 16h00, na Praça Palha Blanco, em Vila Franca de Xira, um festival taurino cuja receita se destina à Associação dos Amigos dos ...
Diário de Notícias - Lisboa - ‎24 de Fev de 2010‎
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Diário de Notícias - Lisboa - ‎24 de Fev de 2010‎
No festival tauromáquico que vai acontecer no domingo em Vila Franca de Xira vão estar presentes nomes como os dos cavaleiros Victor Ribeiro, Ribeiro Telles ...
O Mirante - ‎25 de Fev de 2010‎

Festival Taurino a favor da Associação dos Amigos dos Animais gera polémica. Tauroleve e a Associação da Casa dos Forcados Amadores de Vila Franca de Xira ...