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domingo, 24 de junho de 2012

A Presumível Raça de Lide


Luis Gilpérez Fraile
Vice-Presidente da ASANDA 
- Asociación Andaluza para la Defensa de los Animales.

Desaparecerá a raça de lide quando acabarem as touradas?

Aqui está uma pergunta que nós defensores dos animais fazemos a nós próprios muitas vezes , e que com um tom acusatório , nos fazem os aficionados como parte da argumentação para defender a sua indefensável afição. Para nos darmos, e poder dar uma resposta razoável, em primeiro lugar temos que partir da premissa será verdade que existe o chamado “touro de lide” como raça animal, se a resposta for negativa, a afirmação “sem touradas não há touros” carece de sentido, já que não pode desaparecer o que não existe. Porém, não adiantemos conceitos, porque senão ver-nos-emos envolvidos num emaranhado de vocábulos tais como “espécie”, “raça”, “variedade”, “casta”, etc, sem saber bem do que estamos a falar, que é ao fim e ao cabo o que fazem os aficionados.

CONCEITOS BÁSICOS DE TAXONOMIA

O “nome e apelido” de qualquer animal é definido pela zoologia, pelo seu género e espécie *1*. Todos os animais que pertencem a um mesmo género têm em comum uma série de características semelhantes (características genéricas). Logo, todos os animais pertencentes ao género canis, como o cão e o lobo têm características comuns suficientemente óbvias (é este o caso) mas também características diferenciadoras *2*. Por tal, o primeiro pertence à espécie familiaris (canis familiaris) e o segundo à espécie lupus (canis lupus) * 3*. Com os bovinos sucede o mesmo: a vaca e o zebu pertencem ao género Bos, porém a primeira é da espécie taurus (Bos taurus) e o segundo é da espécie indicus (Bos indicus). Podemos portanto, dizer em termos gerais, que os animais de uma mesma espécie , além de terem as características genéricas próprias, se assemelham entre si tantos como os seus pais, e distinguem-se das demais espécies do mesmo género, e se reproduzem entre si originando descendentes fecundos.
Porém ocorre com muita frequência , que grupos de animais de uma mesma espécie apresentem entre si características quer permitem claramente diferenciá-los (por exemplo , todos os cães são da mesma espécie, porém é possível diferenciar claramente um caniche de um mastim).
Neste caso estamos perante um facto que obriga a categorias inferiores dentro das espécies: são as espécies politípicas. E são nestas subdivisões que as normas taxonómicas se apresentam mais obscuras: as espécies podem dividir-se em sub-espécies e ou em variedades, e estas em sub-variedades ou biótopos. O uso do sinónimo “raça” por “variedade” é frequente e correcto. Continuando com o nosso exemplo canino, um galgo seria um Canis familiaris de raça galgo.
Estas normas taxonómicas, um tanto simplificadas para facilitar a sua compreensão, não têm outro objectivo para os nossos propósitos senão dar uma ideia de conjunto.
Porém é importante assinalar que as características que permitem classificar um grupo de animais dentro de uma mesma raça devem cumprir inexoravelmente as seguintes regras:

a) Que sejam diferenciadores face às demais raças da espécie (as características que aparecem numa raça não servem para descrever outra).
b) Que sejam estáveis, no sentido de confirmarem e perpetuarem com a descendência (uma característica que possa não aparecer nos descendentes, não serve para descrever uma raça).
c) Que sejam susceptíveis de descrição cientifíca (uma caracaterística como “proporcionado” não é válida para marcar uma característica própria de uma raça, pois é uma apreciação subjectiva).
Enquanto que c) é uma regra de racional, a) e b) são não só por conceito cientifíco, mas também por definição semântica do vocábulo “raça”: Cada um dos grupos em que se divide uma espécie orgânica , formada por indivíduos que têm certas características comuns que os distinguem dos outros de outros gupos da mesma categoria e que se transmitem por herança. (Maria Moliner)
Não há dúvida que estas regras se aplicam perfeitamente ao nosso exemplo canino, mas será que se aplicam também aos Bos taurus que se utilizam na lide ?
Antes de dar resposta , permito-me esboçar a origem e evolução dos ditos animais.

A ORIGEM DOS ACTUAIS TOUROS DE LIDE

O seu mais antigo predecessor conhecido é o Bos planitrons que viveu durante o plioceno (final do terciário). Dele descendem pelo menos duas espécies: o Bos primigenius (o uro europeu) e o Bos nomadicus (o uro afroasiático) o Bos primigenius cruzado possivelmente com alguma espécie de cornos curtos, aparece entre 10000-8000 a.c e o Bos taurus actual, o qual começa a diversificar-se de tal forma, que já no Neolítico ( cerca de 4.000 anos a.c.) se conheciam pelo menos três espécies. A partir de então e devido à sua domesticação, sofre constantes cruzamento, muitas vezes com a intervenção do homem, que procura variedades para carne, trabalho e leite. E para não remontarmos muito mais atrás, já nos encontramos na Espanha do séc.XIV, onde se encontram dados que os touros para a lide se comprar aos carniceiros *4* , os quais, devido ao seu ofício conhecem os touros que se mostram mais bravos de entre as vacadas que comercializam. Quer dizer , escolhem-se exemplares de raças criadas para carne, não para a lide. Entre estas raças espanholas eram frequentes a Berrenda, a Cárdena, a Salmantina, a Retinta,etc. São todas raças pertencentes à espécie Bos taurus, com características fixadas ao longo de séculos ou mesmo milénios.
Porém alguns ganadeiros apercebem-se que criar reses para a lide pode ser tão rentável ou mais do que para carne, e em meados do séc. XVIII começam a aparecer as primeiras ganaderias de touros para lide. Estes vaqueiros, seleccionam e cruzam as raças ao seu alcance e começam a produzir touros condenados desde o nascimento à lide. Criaram por isso uma nova raça de Bos taurus ? Agora estamos de novo no princípio.

EXISTE A RAÇA DE LIDE ?

Sinceramente, a resposta é NÃO , e podemos argumentar sobre o assunto.
Recordemos que para poder definir uma raça são precisas cumprir três regras, basta que uma delas, uma só não se cumpra, para não se poder falar em raça. Pois bem, o denominado gado de lide, não cumpre nenhuma das três:

a) Não existem características morfológicas próprias dos touros da hipotética raça de lide, já que estas (as características morfológicas dos touros de lide) são idefiníveis por díspares. Descreva-se qualquer exemplar de qualquer ganadaria das que criam touros para lide, e poder-se-á comprovar que tal descrição não é aplicável a outros exemplares de outras ganadarias que criam exemplares com o mesmo fim*5*. Tão pouco existem características diferenciadoras definíveis entre os touros da hipotética raça de lide face a outras raças da mesma espécie.

b) As características psicológicas diferenciadores, que se supõem na hipotética raça de lide (principalmente a difícil definição de “bravura”) não parecem perpetuar-se de forma regular com a descendência, a ponto de a imensa maioria carecer dela. Segundo denunciam os próprios tauromáquicos. Aliás se assim fosse, a prova de bravura, seria desnecessária e todos os touros nascido de pais “bravos” seriam igualmente bravos. Tão pouco parecem perpetuar-se as características morfológicas : observando fotografias de exmplares de touros bravos de épocas distintas, inclusivé das mesmas ganadarias, pode observar-se que apresentam características morfológicas muito diferentes.

c) Não conhecemos uma única descrição científica das características diferenciadoras da hipotética raça de lide. E isto, apesar de ter consultado uma ampla bibliografia. A razão é a seguinte: não se pode descrever o que não existe. E, tanto assim é que nem o próprio Regulamento de Espectáculos Tauromáquicos a descreve, limitando-se a proibir que se lidem reses que não estejam inscritas no Registo de Empresas Ganadeiras de Reses de Lide, e que as mesmas tenham as caracterísitcas zootécnicas da ganadaria a que pertencem *6*.

Pelo exposto, pode dizer-se que a raça de lide só existe como ideia ou objectivo a alcançar pelos ganadeiros interessados, e mesmo aceitando que existe um fenótipo *7* ideal, o qual não é certo tanto no conceito de “touro de lide” , tanto no aspecto morfológico, como no psicológico, este vem mudando ao longo dos tempos de acordo com as modas tauromáquicas de cada momento.
A afirmação que não existe raça de lide, não é evidentemente só nossa. Por exemplo, aquele que é possivelmente o mais completo e documentado estudo publicado sobre as raças autóctones espanholas *8* , diz sobre o assunto: “O gado de lide constitui em Espanha uma população bovina heterogénea que é bastante duvidosa integrar numa raça, já que a única caracterísitca comum que se pode assinalar é a sua capacidade para mostrar um temperamento agressivo, a que os aficionados da tourada chamam bravura…Por isso, é duvidoso integrar esta diversa população bovina dentro do conceito de raça”.

O QUE SÃO ENTÃO OS TOUROS DE LIDE ?

É indiscutível e já o assinalamos anteriormente que as actuais raças bovinas espanholas são o resultado de cruzamentos com outras raças mais antigas, e estas o resultado de cruzamentos e ou diversificação de espécies ainda anteriores. Quer dizer que num dado momento se partiu de animais mestiços até que as suas características (aquelas que os seus “criadores” consideraram idóneas para os seus fins) se fixaram por selecção artificial para dar lugar a uma raça propriamente dita. A razão pela qual as características das raças autóctones se fixaram e as dos touros de lide não, têm que se procurar não já no tempo que necessariamente tem que transcorrer para que ela ocorra ( com mais de dois séculos houve tempo suficiente para tal), mas sim nos próprios interesses do negócio taurino.
Se desde um primeiro momento (ou inclusive em tempos posteriores) se tivesse decidido o prótotipo do touro que se queria alcançar, seguramente que hoje existiria uma raça de touros de lide. Porém, as modas e os interesses conduziram a que os gandeiros continuassem mestiçando continuamente *9* , de forma a que os touros de lide de hoje não se parecem com os de ontem, estes com os de anteontem, e tão pouco se parecerão com os de amanhã se se continuar pelo mesmo caminho.
Finalmente: os touros de lide actuais não são senão animais mestiços que não pertencem a nenhuma raça determinada, e só para fixar um conceito que sirva de referência, permito-me defini-los da seguinte forma “animais pertencentes a diversas pseudo-raças de Bos taurus, com a característica frequente, indefinível cientificamente, de manifestar uma agressividade instintiva quando acossados”, característica que repartem com muitas outras espécies e inclusive com exemplares de outras raças bovinas.

SÃO SINCEROS OS AFICIONADOS QUANDO SE PREOCUPAM COM A SUA POSSÍVEL DESAPARIÇÃO ?

É evidente que aos aficionados o que os preocupa é o desaparecimento das touradas, não dos touros : os simples aficionados porque perdiam o seu divertimento ; os outros – ganadeiros, críticos , matadores, etc. – porque perdiam o seu negócio. Porém, nem a uns nem a outros, lhe interessa a sorte das pseudo-raças de lide. E para fazer esta afirmação baseio-me nos seguintes factos:

a) Muitas pseudo-raças perderam-se e muitas outras se perderão, de forma provocada, e quanta a essas eles não preocupam *10*.

b) Várias raças bovinas autóctones (verdadeiras raças) desapareceram nestes últimos anos (campurriana , pasiega, lebaniega, etc) e muitas outras encontram-se em perigo eminente de extinção ( albera, blanca cacereña , cachena , murciana, etc.) e não são os aficionados que reclamam a sua protecção.

DESAPARECERÃO AS PSEUDO-RAÇAS QUANDO ACABAREM AS TOURADAS?

Os touros bravos não existem porque existem touradas, antes pelo contrário: as touradas existem porque existem touros bravos.

Recordemos que os primitivos ganadeiros de bois, tentaram durante séculos erradicar essa característica brava do seu gado, seleccionando os animais mais mansos e consequentemente mais manejáveis.

E assim, no séc. XVIII os primeiros ganadeiros de reses de lide encontraram-se a braços com exemplares cujo gene de bravura não tinha desaparecido. Todavia hoje existem exemplares entre as ganaderias de touros de carne que manifestam uma agressividade instintiva quando provocados ou acossados *11*. Não se duvide pois que este carácter se perpetuará ainda durante muito tempo de forma natural, sobretudo se não se tentar seleccionar em sentido contrário.
Portanto é primordial conservar as raças bovinas autóctones espanholas, verdadeira riqueza zoológica e zootécnica do nosso país, em vez das pseudo-raças de lide. Calcula-se que 32% encontram-se em eminente perigo de extinção e 38% em perigo moderado de extinção *12*.

Quanto às pseudo-raças de lide, com um valor ecológico muito menor que as anteriores, a sua sobrevivência às touradas é um simples problema de vontade. Haveria que decidir que fenótipos se desejam perpetuar para impedir que os ganadeiros continuem a fazê-los desaparecer. Não esqueçamos que o próprio negócio tauromáquico é o seu pior inimigo. Uma vez estabelecidas as características diferenciadoras da raça de lide, só deveriam estar inscritos no livro genealógico de raça bovina de lide os exemplares que as tivessem e em pouco anos já se poderia falar de raça de lide.
E existindo uma raça de lide , a sua protecção em herdades para o efeito seria económico e simples. Muito mais que a protecção a outros animais em perigo de extinção (linces, lobos ou ursos *13*) se tem mostrado possível.

E também não podemos esquecer que sem ser utilizados para a lide, as actuais pseudo-raças de lide são economicamente rentáveis como produtoras de carne, ou pelo menos tão rentáveis como muitas raças espanholas de criação intensiva *14*. Quer dizer, são uma verdadeira alternativa de produção em terras que não permitem manter outras raças mais delicadas, embora o seu manuseamento seja mais complicado.
Em resumo: as pseudo-raças de lide não têm que desaparecer se se acabar com as touradas, e não há dúvidas que quem agora advoga a sua abolição, serão os que a partir de então lutarão pela protecção de tão belos e magnifícos animais.

NOTAS

*1* È a chamada nomenclatura binominal . Consiste em duas palavras latinas das quais a primeira se escreve em maiscúlas e designa o género, e a segunda em minuscúlas e designa a espécie. Estas normas internacionais estão reconhecidas no Código Internacional de Nomenclatura Zoológica.
*2*Não tanto, como por exemplo entre o lobo e a raposa e o cão e a raposa. É por isso que as três espécies pertencem a uma mesma família (a dos canídeos), porém só o cão e o lobo são do mesmo género (a raposa pertence ao género Vulpes).
*3*A espécie é a mais representativa das categorias taxonómicas, e pode ser definida como “um conjunto de população natural que pode cruzar-se entre si, real ou potencialmente” (Mayr”. Em linguagem comum, a espécie designa-se por um substantivo concreto: cão, lobo, vaca, etc.
*4*Por exemplo em 1478, em Sevilha houve uma tourada “oito dos quais se compraram ao carniceiro Juan Ruíz , pagando 2.500 maravedís cada um” (Los Caireles de Oro, de Pascual Millán).
*5*A descrição normal de uma raça bovina inclui pelo menos a altura, peso médio, proporções, forma da cabeça, cornadura, pelo e cores. Como qualquer um pode comprovar , todas estas caracterísiticas são muito diferentes nos touros criados para lide. Para muito autores tauromáquicos, as características diferenciadoras dos touros de lide não são morfológicas, genéticas ou fisiológicas , mas sim psicológicas. Por exemplo para Filiberto Mira um touro de lide é aquele que tem uma “saída alegre e rápida do curro, vai ao encontro nos três esconderijos, dobra humilhado e no percurso ao ser toureado com a capa….etc”. Estes critérios são taxonomicamente inaceitáveis. Outros como Manuel Prieto y Prieto, assinalam aquelas que devem ser as características tipo das raças vacuns de lide, porém terminam como recomendação para as distinguir “os sinais ou marcas e as divisas”
*6*Há que assinalar que “características zootécnicas “ é um disparate semântico: zootecnia é “o conjunto de conhecimentos relativos à criação de animais domésticos e a prática desses conhecimentos”, portanto “características zootécnicas” não tem sentido. Também é de assinalar que para se inscrever no registo de Empresas Ganadeiras de reses de lide, não se exige ao interessado que conte com as reses da vaca de lide, mas sim com as reses inscritas no livro genealógico da raça bovina de lide, na qual se inscrevem as reses pertencentes às ganadarias de reses de lide. Uma pescadinha de rabo na boca, precisamente por não se poder definir cientificamente as características da hipotética raça de lide.
*7*Fenótipo: conjunto de propriedades genéticas, estruturais e funcionais de um organismo.
*8*Miguel A. Garcia Dory, Silvio Martinez Vicente e Fernando Orozco Piñan, Guía de Campo de las razas autóctonas españolas (Madrid, editorial : Alianza Editorial, 1990), 228.
*9*É do conhecimento geral que as “figuras “ do toureio escolhem ou vetam ganadarias consoante os touros se acomodam ou não à sua forma de tourear. E isto já acontece desde o aparecimento das primeiras ganadarias de touros de lide , sendo famoso o memorial escrito por Illo e Costillares (dois famosos matadores do séc.XVII) exigindo à autoridade que não comprasse touros da raça castelhana para os espectáculos onde iriam actuar. Estas exigências das “figuras” têm levado os ganadeiros a produzir touros ditados pelas modas.
*10*A tal ponto que das oito pseudo-raças do séc. XVII (dez, segundo outros autores) – e por pseudo-raças originárias referimo-nos às 8 ou 10 ganadarias que começaram a criar touros com a finalidade exclusiva de os dedicar à lide, e que estavam formadas por exemplares de raças autóctones espanholas – não há hoje uma só ganadaria que conserve exemplares que não sejam mestiços: quer dizer desapareceram todas. Pode mesmo afirmar-se que de algumas daquelas, até o sangue dos seus descendentes se extinguiu nas ganadarias que os tinham: por exemplo da vazqueña, da raso-portillo da jijonesa, etc.
*11*Tanto assim é, que em muitas festas populares, até à entrada em vigor do novo Regulamento Tauromáquico – que o proíbe para zelar pelos interesses dos poderosos ganadeiros de touro bravo – , vinham-se utilizando touros de ganadarias de carne, os quais, se eram bem escolhidos mostravam tanta bravura como os criados como bravos.
*12*Na actualidade restam 27 raças bovinas autóctones espanholas. De 9 delas restam menos de 1000 exemplares. Dados certos indicam que pelo menos 4 raças já desapareceram.
*13*Os ursos foram utilizados em Espanha, durante séculos e até ao séc.XX em espectáculos tauromáquicos. Abolida esta dita “manifestação cultural, os ursos não desapareceram.
*14*O rendimento da carne das reses de ganadarias de lide anda á volta de 57%. As de carne de pastagem, á volta de 55%.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

A Tourada à Portuguesa ou nem por isso

Ao toque de uma corneta, deu-se início à função.


A multidão adivinha um bom espectáculo. Até a televisão pública está ali a transmitir em directo.
A «Festa Brava» vai começar!

Fizeram entrar na arena um touro de cornos embolados.
Assustado, o animal ainda deu umas corridas, meio estonteado com toda aquela parafernália de gente e de luz. Depois encostou-se resolutamente às tábuas.


Entretanto em Espanha....

Não havia outro remédio: entrou na arena um homem que trazia na mão uma longa vara que terminava numa ponta de ferro afiada, montado num cavalo protegido lateralmente por uma espécie de esteira.


Foi então que esse homem, o «picador» fazendo jus ao nome da sua profissão, começou a picar o touro com a longa vara. Dizem que é para o «espicaçar» e para o tornar mais «esperto» e bravo.


Contorcendo-se de dor e procurando defender-se, o touro investiu violentamente contra o cavalo. A princípio, a protecção da esteira foi eficaz a protegê-lo.
Mas uma cornada mais bem dirigida abriu-lhe um profundo golpe na barriga.
A multidão entrou em delírio à vista do cavalo a sair da arena a tropeçar nos seus próprios intestinos que arrastavam pelo chão: tínhamos touro!

Mas, como mais vale prevenir que remediar, o touro já vem dos curros, «preparado» para a arena...

Depois, entra um cavaleiro vestido num espectacular «traje de luces». Vão-lhe dando as "farpas", "bandarilhas", uns paus compridos, decorados com umas fitinhas de papel de cores garridas, dotados de uma ponta em ferro em forma de seta, o que impede a sua saída depois de espetado.

Resguardado pela sua montada, começa então o valente e garboso cavaleiro uma dança à volta do touro e, de cada vez que acha mais ou menos apropriado, espeta-lhe um daqueles ferros nas costas.
De cada vez que um ferro é espetado no animal, a multidão entra em delírio e aplaude entusiasticamente. Principalmente quando o touro se contorce com dor.

Não há touros de morte em Portugal.
A não ser, claro, que alguém entenda que a sua terra é uma excepção. Então basta desafiar o poder político durante meia dúzia de anos, e o direito a matar touros é «excepcionalmente» garantido.
Resultado de imagem para Não há touros de morte em PortugalBarrancos - Os touros de morte
Monsaraz, regime de excepção desde 2014               Barrancos, regime de excepção desde 2002

Então, como em Espanha, a população depois do ritual dos ferros nas costas do touro, ganha o direito a ver o animal a ser morto na arena à sua frente. Faz ainda parte da celebração da morte do touro o corte ritual das orelhas e do rabo, sempre sob o aplauso entusiástico do público.

Os «aficionados», como a si próprios se chamam, partilham entre si uma espécie de mística e uma sobranceria que os traz convencidos que gostar de touradas os torna superiores ao comum dos mortais.
Em vez de «touro» preferem o termo «toiro» e são frequentemente dotados de um «marialvismo fadista» e de uma fervorosa e fanática religiosidade, que conciliam perfeitamente com uma homofobia militante, o que até os leva a fazer de conta que os trajes dos toureiros não são efeminados.

Os adeptos das touradas dizem que é função nobre do touro e uma «honra» para o animal «combater» e ser lidado numa arena.
Não sei se algum deles alguma vez pediu a opinião do touro, ou até se prontificou a ser voluntário em tão nobre destino.

Dizem também que é graças às touradas que os touros não estão já extintos como espécie.
Também não sei se se preparam para realizar campanhas contra a extinção do panda ou do tigre promovendo espectáculos públicos em que lhes espetam ferros nas costas.


Não sei quando serão proibidas as touradas.
Decerto um dia o serão.

Mas talvez a solução definitiva para as touradas esteja numa rigorosa avaliação psicológica – e até mesmo psiquiátrica – não só de quem se dedica profissionalmente à tortura de animais e a espetar-lhes ferros afiados nas costas, mas também de quem se diverte a assistir e aplaude tão triste e lamentável espectáculo.



segunda-feira, 14 de maio de 2012

Touradas = Conservação das Espécies?

Em 2008 a Acção Animal distribuiu mais de 500 panfletos pelo fim das touradas em Portugal e pelo respeito aos milhares de touros que são anualmente torturados em nome do entretenimento e da tradição.
O Pedro, uma das pessoas que recebeu o nosso panfleto, disse que estava indeciso sobre a sua posição em relação às touradas, devido à sua importância em manter a espécie do touro bravo.

Esclarecemo-lo na altura mas ficam aqui os argumentos que certamente serão úteis para outras pessoas.
Os proprietários das ganadarias mantêm os touros nos seus terrenos, não porque tenham uma grande consciência ecológica e ambiental, mas porque daí retiram dinheiro. Muito dinheiro. No dia em que os touros deixarem de ser vendidos a 2000 euros cada, cerca de 2600 animais por ano (DN, 2007), os proprietários das ganadarias rapidamente se esquecerão de qualquer importância ecológica ou da biodiversidade do touro bravo.
É esta a principal, senão a única, verdadeira razão para a continuação das touradas no nosso país – interesse económico.
É claro que, para desculpar o indesculpável, atiram para os olhos o facto de se querer proteger uma espécie. Mas nem o touro bravo é uma espécie nem a extinção desta raça é irremediável e obrigatória quando as touradas acabarem.
Nada impede o Estado português de criar parques naturais ou outras soluções viáveis para a conservação destes animais.
O que não pode nunca acontecer é justificarmos o sofrimento e morte de um ser com a capacidade de sofrer para o poder “conservar”.
A conservação do panda passa por espetar bandarilhas no seu dorso? A recolocação do lince ibérico na Península Ibérica passa por o pegarmos de caras?
A conservação de espécies / raças, não é argumento para continuar a haver touradas. É um papel que tem de ser assumido pelos portugueses e pelo Estado e não por empresas que da exploração desses animais retiram avultados lucros.
Existe outro argumento frequente, que é o da conservação dos ecossistemas, mas este é ainda mais frágil. É que estamos a falar de um animal totalmente domesticado, que só existe por selecção artificial de características de interesse. Isto significa que um touro bravo é totalmente substituível senão supérfluo na manutenção dos montados portugueses.
Voltamos então ao único argumento de peso para a manutenção das touradas. Os interesses económicos. Interesses esses que vivem de um espectáculo que promove a ideia de que existe justiça e igualdade em colocar um animal num local estranho e com regras definidas pelos humanos; que coloca animais numa luta que estes não desejam entrar (mas são forçados a isso); que vive da diabolização da imagem de um herbívoro territorial e faz disso um espectáculo de entretenimento.
É vital rejeitarmos esta visão subvertida da realidade. É preciso dizer que a tourada não é uma fatalidade e que podemos acabar com uma das formas mais indignas e desumanas de tratamento dos animais da actualidade. É incontornável assumirmos este como um dos principais objectivos do movimento de defesa e de direitos dos animais.

Hugo Evangelista – Biólogo

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Ética e touradas

por  António Maria Pereira

«O Boletim da Ordem dos Advogados, dando largas a uma surpreendente "aficion", publicou no seu último número quatro artigos sobre tauromaquia em que, com excepção do primeiro, da autoria de Silvério Rocha Cunha, que é imparcial, os três restantes, escritos por óbvios aficionados, procuram esforçadamente justificar a festa brava. Mas o entusiasmo do Boletim pelo espectáculo de touros é tal que foi ao ponto de acolher nas suas páginas um panegírico da tourada da autoria de um conhecido aficionado cuja profissão é de médico veterinário (!).

O elogio da festa brava num boletim da Ordem dos Advogados parece-me totalmente deslocado e desqualifica a revista. O Boletim fez-se para debater assuntos que possam interessar os advogados mas nunca para apoiar o lobby dos touros num debate que divide a sociedade portuguesa mas que não interessa particularmente aos advogados (com excepção de alguns aspectos jurídicos que praticamente não foram abordados).

De qualquer modo, para que não fiquem sem resposta os principais argumentos dos aficionados, vou tentar comentá-los nas linhas que se seguem.

O movimento universal de protecção dos animais corresponde a uma exigência ética e cultural universal, consagrada na Declaração Universal dos Direitos do Animal (1978), em numerosas convenções internacionais e em centenas de leis, incluindo leis constitucionais, dos países mais adiantados.

Nas suas diversas formulações todos esses diplomas têm um denominador comum: a preocupação com o bem-estar dos animais envolvendo antes de mais, a condenação de todos os actos de crueldade; mas além dessa preocupação, um número cada vez maior de correntes zoófilas defende o reconhecimento aos animais de autênticos direitos subjectivos.

O debate sobre esses temas, iniciado aquando do arranque da era industrial, na segunda metade do séc. XIX, ampliou-se a partir da criação, após a última grande guerra, das grandes instituições europeias e mundiais (Conselho da Europa, União Europeia e UNESCO) e actualmente trava-se em várias universidades onde se ministram cursos sobre os direitos dos animais (é o caso das Universidade de Harvard, Duke e Georgetown nos Estados Unidos e de Cambridge, na Inglaterra). Numerosos e qualificados autores têm intervindo nesse debate, iniciado com as obras pioneiras dos já clássicos Tom Reagan e Peter Singer. Em Portugal a discussão tem decorrido sobretudo na Faculdade de Direito de Lisboa graças designadamente aos contributos de António Menezes Cordeiro e Fernando Araújo e ainda nas Faculdades de Direito da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade de Coimbra. Como nota Fernando Araújo em A Hora dos Direitos dos Animais, a bibliografia sobre este tema compreende actualmente cerca de 600 títulos (!).

Não se trata, portanto, de um assunto esotérico cultivado por uns tantos iluminados vegetarianos mas sim — tal como os direitos do homem — de uma componente muito importante da cultura ocidental; a tal ponto que a obrigação para os Estados da União Europeia, de garantirem o bem-estar animal está hoje formalmente consagrado em protocolo vinculativo anexo ao Tratado de Amesterdão.

Não há tempo, neste artigo, que tem como tema as touradas, para entrar no debate sobre os direitos dos animais. Partamos, por isso, de uma conclusão em que todos esses autores — mesmo os que não aceitam a atribuição de direitos aos animais — convergem: a de que são absolutamente contrários à ética os actos de crueldade gratuita para com os animais.

Esta é sem dúvida uma conclusão pacífica não só para os zoófilos mas também para o homem comum em geral e até para os próprios aficionados. Com efeito, se se perguntar a qualquer pessoa (incluindo aficionados de touradas, organizadores de combates de cães e de tiro aos pombos, etc.) se concordam que se torturem animais, é praticamente certo que responderão pela negativa. E no entanto, contraditoriamente, torturam ou organizam a tortura de touros, de cães e de pombos.

O óbvio sofrimento dos touros

É óbvio que os touros sofrem quer antes, quer durante, quer após as touradas. A deslocação do animal do seu habitat, a sua introdução num caixote minúsculo em que ele se não pode mover e onde fica 24 horas ou mais, o corte dos chifres e as agressões de que é vitima para o enfurecer; ao que se segue a perfuração do seu corpo pelas bandarilhas que são arpões que lhe dilaceram as entranhas e lhe provocam profundas e dolorosas hemorragias; e finalmente, na tourada à portuguesa, o arranque brutal dos ferros; e tudo isto já sem se referir a tortura das varas e do estoque na tourada à espanhola — representam sem quaisquer dúvidas sofrimento intenso e insuportável para um animal tão sensível que não tolera as picadas das moscas e as enxota constantemente com a cauda quando pasta em liberdade.

A SIC exibiu há tempos um documentário sobre o que se passa na retaguarda das touradas. Quando chegou à fase final do arranque das farpas o funcionário da praça não permitiu a filmagem por a considerar demasiado impressionante. Mas pudemos ouvir os horrendos uivos de dor que o animal emitia do seu caixote exíguo e que eram de fazer gelar o sangue dos telespectadores.

Na tourada à espanhola com picadores o quadro ainda é mais cruel: o touro é perfurado ainda mais profundamente pela comprida e afiada ponta da "puya" que lhe rasga a pele, os músculos e os vasos sanguíneos, provocando-lhe intencionalmente uma dor intolerável e uma abundante hemorragia, enquanto um cavalo, de olhos vendados, é corneado pelo touro enraivecido e com frequência derrubado e ferido — e tudo isto para gáudio de uma multidão que a cada novo ferro cravado e a cada nova e mais profunda perfuração da vara, vibra com um gozo em que a componente sádica é óbvia.

Perante a evidência de que o touro sofre — e sofre intensamente — ao ser toureado, os aficionados desdobram-se em atabalhoadas tentativas de justificação que não obedecem a um mínimo de razoabilidade, atingindo algumas vezes as raias do surrealismo.

É o que faz Joaquim Grave no artigo publicado no Boletim ao afirmar que "só se pode pronunciar sobre os aspectos éticos da tourada quem conhece o espectáculo". Conclusão esta que, salvo o devido respeito, é completamente absurda, certo como é que os aspectos cruéis acima referidos são óbvios para quem quer que os presencie não sendo necessário estudar tauromaquia para chegar à conclusão de que o touro é objecto de grande sofrimento ao ser farpeado e estoqueado.

Ética e tortura dos touros

Afirma ainda Joaquim Grave que "na corrida existe uma certa ética na relação homem/animal, ou, por outras palavras, e contrariamente ao que afirmam os que a não conhecem, na corrida o touro não é tratado como uma coisa, já que não se lhe pode fazer qualquer coisa indiscriminadamente".

Falar em ética para justificar a cruel agressão, com perfuração por ferros, a um animal abruptamente arrancado ao seu habitat é um absurdo, um "nonsense". Absurdo esse que atinge os limites do surrealismo ao sustentar-se que, no domínio do tratamento cruel, haveria crueldades que a ética permite (as farpas, a puya, o estoque) e outras que a tal ética não autorizaria. Como não se exemplifica de que crueldades se trata suponho que o autor se queria referir, por exemplo, às bandarilhas de fogo ou a cravar farpas nos olhos do touro.

Tudo isto é absurdo. A ética exige que não se inflija qualquer sofrimento cruel ao touro, ponto final. Se esse sofrimento resulta dos ferros cravados ou de qualquer outra coisa "que não é costume executar nas touradas", é um aspecto completamente irrelevante à luz da ética e insustentável em face da razão e do bom senso.

Tentando de novo invocar a ética para justificar a barbárie da tourada, Joaquim Grave mais adiante afirma que "a ética touromáquica é pois a seguinte: respeita-se a natureza do touro, combatendo-o, pois é um animal de combate".

Uma vez mais estamos perante um falso argumento em que a má-fé é evidente: o touro é um animal inofensivo quando no seu habitat; mas é evidente que tem, como todos os animais, o instinto de defesa que o leva a atacar quando agredido. Ele é vítima de uma maquinação cruel de quem o retira do seu habitat, o encerra numa praça e depois o agride cravando-lhe ferros.

A conclusão do artigo está à altura da argumentação: "sendo o touro um ser por natureza bravo, ele realiza o seu grande bem lutando, ele realiza a sua natureza de lutador na luta e ele realiza-se plenamente a ele próprio na corrida e pela corrida".

Lê-se e não se acredita: o infeliz touro, que é levado à força de seu habitat e depois perfurado com farpas, com a "puya", ou estoqueado, que quando não é morto acaba a tourada com feridas profundas e pastas de sangue a escorrer pelo lombo, esse sacrificado animal seria afinal uma espécie de bombista suicida, que se realizaria plenamente pelo seu próprio sofrimento e morte em combate...

Estamos aqui uma vez mais no reino do absurdo. Como é óbvio, ao contrário do bombista suicida, que procura alegremente a morte, o pobre touro, se pudesse falar, diria com certeza que o seu único desejo era nunca sair da lezíria e continuar a pastar pacificamente.

O toureiro — grande defensor dos touros!

Também o Dr. João Vaz Rodrigues, num artigo com pérolas de poesia surrealista, como aquela em que "repudia a hipocrisia de quem sacrifica de bom grado a vida de uma singela flor para preencher emocionalmente um desígnio de vaidade e verbera veementemente o sangue de um animal cujo o destino é exactamente o de morrer na arena", acrescentando "bem sei que a flor não se manifesta da mesma maneira mas morre igualmente sacrificada à emoção", remata com esta frase lapidar: "quem defende o touro é o próprio toureiro e os demais que respeitam a festa. Sem este aquele sofre sérios riscos de extinção".

Ao longo de todo este artigo, além da nostalgia do autor "por já não conseguir assistir à caça à baleia ou aos banhos de espuma sanguinolenta da "copejada" do atum de Tavira" (Freud poderia dar aqui um contributo importante para a explicação de tal "nostalgia") o único argumento que sobressai é o do receio da extinção da espécie taurina caso as touradas acabassem.

Tal como os outros, este argumento não procede, certo como é que, se necessário, se poderia facilmente criar reservas de touros, tal como existem reservas de búfalos.

Resta a pasmosa afirmação de que "quem defende o touro é o próprio toureiro". Na mesma linha de argumentação pode afirmar-se que quem defende a vítima da tortura é o torcionário. Ora aqui está um bom argumento para uso dos advogados defensores dos réus que no Tribunal Internacional de Haia e noutros tribunais são acusados de crimes contra a humanidade: ao torturarem e executarem barbaramente milhares de muçulmanos na Bósnia os torcionários estavam afinal a defender as suas vítimas! É claro que não vale a pena discutir nestes termos de irracionalidade.

Em conclusão, o certo é que nenhum dos aficionados autores dos textos publicados no Boletim da Ordem dos Advogados — como nenhum aficionado em qualquer parte do mundo — conseguiu ou conseguirá jamais demonstrar, de boa-fé, que os touros não sofrem ao serem lidados. Sofrimento esse que não tem qualquer justificação a não ser o prazer sádico e emotivo de quem a ele assiste.

E a confirmação desse sadismo está nesta atitude: quando se propõe a um aficionado que as farpas em vez de terem arpões de ferro tivessem ventosas — como já aconteceu nos Estados Unidos — a sugestão é logo afastada com indignação. O que o aficionado sobretudo quer é ver o sangue, é deliciar-se com o sofrimento do touro.

As touradas ofendem por isso um princípio fundamental da ética que impende sobre qualquer pessoa que se preocupe em pautar os seus actos pelos ditames da moral e da ética.

As touradas foram proibidas em Portugal por Decreto de 1836, da iniciativa do então primeiro-ministro Passos Manuel, por já então, conforme se lê no Decreto, "serem consideradas um divertimento bárbaro e impróprio das nações civilizadas, que serve unicamente para habituar os homens ao crime e à ferocidade".

De então para cá, e apesar do retorno das touradas, o certo é que cada vez mais se acentua a repulsa dos países civilizados por esse barbarismo medieval. Em Portugal, segundo sondagem recente, a percentagem de portugueses que não gosta de touradas é de 74,5 % contra 24,7 que ainda gosta (cf. Público, 26.08.2002).

Tal como os autos de fé, os suplícios e as execuções públicas e outros barbarismos próprios de séculos de obscurantismo — também, a médio prazo, as touradas estão condenadas a desaparecer dos raros países onde ainda são toleradas.»


António Maria Pereira
* 2006 
António Maria Pereira 
(Lisboa, 12 de Fevereiro de 1924 — Lisboa, 28 de Janeiro de 2009) 
 "pai dos direitos dos animais em Portugal"
 O Dr António Maria Pereira, não foi apenas "pai dos direitos dos animais em Portugal", foi indefectível promotor e defensor do processo desencadeado na UNESCO que consagrou a proclamação da Declaração Universal dos Direitos do Animal! 
Para grande orgulho nosso, um ilustre Cidadão Português!

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Pró-Taurinos vs Anti-Taurinos

Após a informação exposta nos artigos anteriores, deste dossier, temos agora enquadramento suficiente para perceber e participar na discussão entre os apoiantes e os detractores das touradas. Abaixo são explorados os principais argumentos utilizados para a defesa e para a proibição das touradas.

A Tradição
 Pró-Touradas
Anti-Touradas
  • São uma tradição enraizada por milénios de relação entre o homem e o Touro e afirmadas como um espectáculo cultural e popular há séculos.
  • Tem uma carga cénica e uma estética deslumbrante que permitem construir uma bonita festa.
Apesar do seu valor histórico as tradições devem acompanhar os tempos e adaptar-se, ou mesmo extinguirem-se, à medida que a humanidade evolui. Os direitos dos animais são cada vez mais um dos pilares de uma consciência ética e justa. O Touro não pode e não deve ter um regime de excepção na garantia desses direitos.
Durante 500 anos a escravatura foi uma tradição e costume.
A emancipação das mulheres foi feita através de uma longa e desigual luta que conseguiu pôr fim a uma supremacia masculina em termos de direitos e exercício de cargos ou profissões.
As execuções em praça pública foram comuns durante séculos.
Este são apenas três exemplos de antigas tradições milenares ou seculares que naturalmente chegaram ao fim. Porque era o correcto e não porque toda a sociedade concordasse com o seu fim.
O que se deve sobrepôr? O perpetuar de uma tradição ou o respeitar do bem-estar humano e animal?
Conhecer e Preservar o Touro
 Pró-Touradas
Anti-Tourada
Os profissionais do mundo tauromáquico, e mesmo os afficionados em geral, são os verdadeiros conhecedores e amantes dos Touros.
Convivem com os Touros em todo os ciclos da sua vida, conhecem-nos como ninguém, seja em aspectos biológicos, seja em aspectos psicológicos e/ou comportamentais.
Sim, é verdade que quem lida com eles diariamente terá a aptidão natural de melhor os conhecer. Não é por acaso que das mais detalhadas e apaixonantes descrições sobre Touros sejam feitas por pessoas ligadas à Tauromaquia, com claro conhecimento de causa.
No entanto é de estranhar que tanta admiração e amor ao animal culminem no aceitar do seu sacríficio num espectáculo baseado no infligir de stress e dor ao Touro.
Quem de perto lida com os Touros sabe que aquele não é o seu ambiente, que investe porque não tem para onde fugir, que sente cada um dos castigos que lhe são fustigados e que tivera o Touro livre escolha e não estaria ali naquela confrontação desigual.
Sabe também quem os cria que um Touro pode viver dezenas de anos, no entanto entrega-o para as lides quando perfazem apenas 3 anos. Privar um Touro de viver as restantes décadas são demonstração de amor, apreço e respeito?
A luta entre homem e Touro na arena é uma luta justa. É o culminar de uma vida de bem-estar em liberdade podendo o Touro salvar a sua vida com um indulto sendo devolvido aos prados.Quanto á luta justa existem dados estatísticos em Espanha que dizem que desde 1771 foram mortos 445 ´artistas´ das lides Tauromáquicas (apenas 65 toureiros) e que desde 1950 foram alvo de indulto apenas 7 Touros. Estranho sentido de justiça aplicada aos centenas de milhares de Touros mortos desde 1771 ou estará a balança avariada? E que dizer do facto de 80% dos Touros indultados morrerem no dia seguinte ao da lide?
Muitos dos que gritam pelo fim das Touradas não fazem o ideia do que é um Touro e do que lhe dá ganas de viver.

O Touro anseia pela confrontação e sente-se confortável na luta. É um animal agressivo que sente prazer na lide.
Não bastará reconhecer que o conceito de forçar um animal a defender-se, de o sangrar na arena e de o ver sofrer são vis, sádicos e macabros?
Precisaremos de conhecer um animal para assumir que não terá ganas de querer sofrer e morrer? 
Muitos dos que gritam a favor das touradas não deixam que os aficionados façam ideia do que é e do que sente um Touro enfabulando e mistificando o conhecimento público sobre os Touros.
Em artigos deste dossier já foi feita a informação sobre o comportamento normal de um Touro que é completamente antagónico ao que o mundo Taurino quer fazer passar.
Sem a Tauromaquia o Touro seria extinto. É uma raça sem interesse comercial para outras actividades onde existem raças mais produtivas.
A Tauromaquia é também uma actividade que preserva milhares de hectares de montado com sistemas de produções de bovinos dos mais sustentátveis e com maior bem-estar animal em todo o mundo.
Com efeito, em três ou quatro anos de vida do touro, este apenas sofre cerca de 30 minutos, o tempo que dura a lide. O resto do tempo, não há animal que viva junto do homem que tenha vida que se lhe compare. Vive em liberdade, em estado selvagem, inteiro.
Intimamente ligado aos Touros existe também o desenvolvimento e apuramento dos Cavalos Lusitanos.
Parece um pouco um contra-senso aqueles que se dizem os principais amantes e defensores de uma espécie defenderem que se não existir algum interesse comercial a sua preservação é impraticável.
Temos em Portugal vários centros de recuperação de espécies em extinção (como o lobo e lince ibérico) e várias reservas onde existe um ecossistema que permite a vivência de espécies autóctones em equilíbrio.
Com a ajuda de biólogos e cooperação dos actuais ganadeiros certamente que seria viável criar uma reserva de alguns milhares de hectares de montado onde fosse possível que algumas manadas vivessem em liberdade. Iria até ajudar certamente a recuperação de um dos seus predadores naturais, os lobos, bem beneficiar o reforço de população de aves necrófagas.
Quanto aos cavalos são outros dos animais explorados na Tourada que felizmente hoje em dia não morrem com a frequência de outros tempos. (apesar de neste dossier não se ter explorado o tema existe também muito sofrimento psíquico e físico dos cavalos, sobretudo dos que são montados pelos picadores que são privados da visão e audição para enfrentarem as investidas do Touro sem perceber o que se passa nem poder reagir instintivamente. Sofrem também graves lesões e por vezes a morte.). Em todo o caso talvez alguns desses cavalos pudessem também ser libertos nas reservas atrás mencionadas.
Visto que aparentemente ambos os lados da barricada têm amor e respeito ao Touro certamente que não seria complicado juntar esforços e dedicação para providenciar uma vida verdadeiramente livre aos Touros.
O Touro é um dos animais na Natureza com maiores níveis de endorfinas e adrenalinas no seu sistema o que leva a que a sua sensibilidade à dor seja extremamente reduzida em alturas de stress comparativamente a outros animais.
O facto de os níveis de stress do Touro atingirem o seu pico máximo durante o transporte, em que estão confinados em espaços exíguos, e baixarem significativamente durante a lide demonstram como é um animal que se sente bem na luta.
A sua bravura suplanta em muito o seu sofrimento porque a sua fisiologia assim o permite.
Exigem estudos científicos rigorosos dos quais resulte a conclusão de forma inquestionável que os animais, e em particular o Touro, sentem, como o fazem e em que circunstâncias.
Isto contraria o facto dos ganadeiros evitarem ao máximo castigar os Touros durante a sua vida pois estes recordam-se para sempre dos castigos que sofrem e dos autores e utensílios utilizados.
Se um Touro sente as moscas que pousam no seu corpo, que reage com espamos involuntários ou com o abanar da cauda para as afastar como poderá não sentir as perfurações de lâminas com vários cm de diâmetro e profundidade?
Também um Homem em luta pela sua vida não sente a dor das lesões que sofre a quente. Se estudassem apenas os homens quando se encontram em combates de ringue não iriam tirar as mesmas conclusões?
Cientificamente está aqui rebatido esse argumentocom indicação de todas as lesões provocadas pelas sevícias a que é sujeito um Touro bem como do stress a que é sujeito.
Mesmo que o Touro nada sentisse, qual a moralidade de provocar lesões num animal que lenta e progressivamente conduzem à sua morte?
Durante séculos o nosso conhecimento sobre o bem-estar físico e psicológico dos animais era rudimentar. Ainda há duas ou três gerações era comum dizer-se que os animais não sentiam dor. Hoje em dia está comprovado que os animais, incluindo o Touro, são seres sencientes, capazes de sentir dor física e sofrimento psíquico/emcional. Negá-lo está ao nível da posição da inquisição sobre os heréticos avanços da ciência.
Outros Argumentos
 Pró-Touradas
Anti-Touradas
A Tourada é um espectáculo que ocorre em recinto fechado com bilhete pago. Só assiste quem quer. E quando dá na TV quem não quiser assistir basta mudar de canal.
Quem não gosta não vê.
Não podemos ficar indiferentes aos maus tratos a animais infligidos aos Touros durante um pretenso espectáculo cultural. O regime de excepção para com os Touros equivale a uma lei penalizadora de um crime, excepto se cometido sobre um tipo de vítimas em particular. O Touro é um animal como os outros e deve ser reconhecido e protegido como tal.
O sentimento de injustiça e intolerância são o natural para com uma tradição que parou no tempo e assenta numa violação dos direitos e bem-estar de animais.
A partir do momento que existem apoios de autarquias e televisões públicas à exaltação de um espectáculo que assenta em derrame gratuito e violento de sangue, os cidadãos portugueses têm o direito de manifestar o seu desagrado e exigir o fim de todo e qualquer apoio a esta actividade, bem como ao seu fim. 
Porque é que aqueles que se insurgem contra as Touradas não se insurgem contra o sofrimento e más condições de vida das galinhas, porcos, vacas, peixe, etc, que comem tranquilamente sem problemas de consciência?
Porque não se preocupam com os cães e gatos abandonados que são um flagelo no nosso país?
Ora, os defensores dos direitos dos animais fariam melhor em preocupar-se com os valores civilizacionais que transformaram a vida de certos animais domésticos num espectáculo verdadeiramente degradante do que com as touradas que enobrecem e perpetuam a vida dos touros bravos, proporcionando-lhes uma vida de fazer inveja à dos seus primos bois.
E porque assumem que não o fazem? Muitos dos activistas anti-tourada praticam uma dieta vegetariana e/ou defendem o bem-estar dos animais, mesmo daqueles que têm como destino o consumo humano.
Muitos estão também intimamente ligados a associações zoófilas que lidam directamente, com acções no terreno, com o problema do abandono de cães e gatos em Portugal.
Não existe uma prioridade para os horrores e resolução de problemas. A polivalência é necessária e obrigatória exactamente para não deixar agravar aqueles que são descurados.
Recentemente conseguiu-se a vitória de a prazo acabar com o uso de animais em circos. O fim das Touradas se seguirá. É mais uma de muitas batalhas em curso pelos direitos e bem-estar dos animais. 
A Tourada foi apreciada desde sempre e inspirou muitos artistas com obras marcantes sobre o tema expressas em pinturas, esculturas, música e obras literárias.Os artistas são como o resto das pessoas. Existem os aficionados e os que se oponham à Tourada. O facto de ser alvo de abordagens no trabalho de vários grandes artistas não deverá ilibá-la daquilo que é.
Também muitos artistas se inspiraram em guerras, em cenários de catástofres naturais e sofrimento humano e ninguém defende que estas devam ocorrer para estimular veias criativas.
A Tauromaquia é uma actividade auto-sustentada que gera empregos e riqueza para o país.
Não recebem quaisquer apoios financeiros do estado. 
Seria um desastre económico o fim da actividade Tauromáquica.
Auto-sustentada? A receber milhões de euros de apoios de autarquias anualmente para manutenção dos recintos e organização das ´festas´?
Todas as revoluções que têm impulsionado o desenvolvimento da nossa civilização têm provocado transformações nas actividades profissionais existentes. A revolução industrial acabou com o fabrico artesanal de milhares de produtos, a robótica e informatização extinguiram também uma série de tarefas que eram executadas por pessoas e os sectores económicos mais fortes estão em constante mudança obrigando a uma movimentação constante das massas laborais.
O fim da Tauromaquia seria apenas um desastre económico para as poucas centenas de famílias que dela dependem a 100%. E isto se não fosse estabelecido algum tipo de plano que lhes permitisse a transição gradual de actividade. Não é defendida a ruína de pessoas mas o fim de uma actividade cujos moldes podem e devem ser negociados para diminuir o seu impacto nos agentes que vivem exclusivamente dessa actividade.
As praças de Touro continuariam a existir mas o seu espaço a ser reaproveitado para actividades verdadeiramente lúdicas e culturais.
Muita gente é aficionada desde tenra idade e não é por isso que são pessoas mal-formadas, agressivas ou perigosas para com os outros ou animais.Não pode ser ignorada a força da sugestão e do subconsciente, bem como o culto de alguma ignorância.
A tourada incute a imagem errada dos Touros e sobretudo educa a tolerância à violência, ao sofrimento e a imagens sangrentas a troco de divertimento. Mesmo que apenas para com Touros, o que pode ser discutível.
Mais detalhes sobre o impacto da Tourada em crianças e jovens pode ser lido neste ensaio feito por um psiquiatra.
Os anti-taurinos atribuem aos animais características humanas para despertar proximidade e identificação confundido o que são pessoas e o que são animais.
Com a antropoformização do Touro deixam-no de ver como o animal que é com necessidades, comportamentos e reacções psíquico-físicas distintas das de um ser humano.
Touro Bravo, Fera Negra, Besta Negra, símbolo da morte e do medo, arrogante, valente, etc. São apenas alguns dos termos comuns utilizados pelos pró-Taurinos. Tão depressa o sacralizam, como diabolizam como o antropoformizam.
Descrevem-no à medida do necessário para conceder uma carga sagrada, poética, espiritual, transcendente ao acto da Tourada.
Ao dizerem que o Touro nasce para arena e que não sente dor devido ao prazer da luta estão também já cegos para com as reais necessidades, comportamentos e reacções psíquico-físicas deste animal que tão bem conhecem.
Ocorrem muitos espectáculos com Touros para fins beneméritos existindo uma forte solidariedade social com grandes benefícios para misericórdias e outras associações.Ser pró-taurino não quer dizer que não se seja solidário e voluntário para com causas sociais pelo que este é um argumento que parece ser uma lavagem de cara servindo-se daqueles que vivem com a corda no pescoço e que não podem recusar donativos. 
Mesmo assim há muitas associações zoófilas que recusam donativos oriundos de actividades que envolvam o sofrimento de animais pelo que normalmente o alvo dos donativos são associações de causas relacionadas com a melhoria de vida de pessoas mais carenciadas.
É louvavel esta atitude e distribuição de dinheiro que não deixa de ser um dinheiro sujo de sangue. 
Mas lançamos o desafio de que os apoios dados pelas autarquias em vez de serem canalizados para actividades tauromáquicas sejam directamente canalizados para associações sem fins lucrativos de apoio a pessoas e animais.
Admitem um dia colocar fim às actividades Tauromáquicas. Mas pela falta de afluência de público e não por resultado de manifestações daqueles que são contra estas práticas.As manifestações físicas e online são uma das vias para conduzir a essa falta de público. O que elas pretendem é mostrar que há muitos cidadãos incomodados com as práticas tauromáquicas e trazer a público informação e pontos de vista muitas vezes desconhecidos. 
Perspectivas
 Imagem
 Pró-Touradas
Anti-Touradas
Cientistas espanhóis clonam primeiro touro de arena do mundo.Um Touro bravo. Apesar da sua frágil aparência enquanto bezerro não se deixem enganar. Dentro de pouco tempo estará feito um Touro agressivo e lutador.

Esperemos que passe na triagem que separa os bravos dos mansos e ganhe o direito a lutar pela sua vida na arena proporcionando um bom espectáculo aos aficionados.
Um animal que como todos os outros tem direito à vida e ao bem-estar.
Se assim o deixarem viverá pacificamente, como é a sua natureza.
3 anos separam-no daquele que é verdadeiramente o seu inferno na terra: uma tourada.
Touros para a Capeia do Campo Pequeno - 2010É chegada a altura do Touro cumprir o seu destino e ser encaminhado para a arena onde poderá lutar com valentia e mestria pela sua vida.

Será conduzido ao transporte que o levará à arena onde terá meia hora de dignidade e prazer para fazer aquilo que mais gosta enfrentando os seus oponentes de igual para igual com uma bravura, fúria e força únicas.
Com menos de 20% da sua vida cumprida, acabado de terminar a sua juventude, o Touro é retirado do seu habitat com destino à lide.
Em poucas horas é ´raptado´ à força, transportado em espaço diminuto e colocado na arena onde encontrará a morte certa.
Festas de Barrancos 2010 - 2º dia O Touro descansa nos curros, recuperando da viagem que causa algum stress.

É importante que o Touro se acalme para poder combater com total discernimento.

São-lhe dadas todas as condições para que se apresenta na máxima força no momento da tourada.
Após o transporte é colocado nos curros onde aguarda pela hora em que é forçado à luta.
Apesar de menos stressado do que durante a viagem encontra-se num ambiente totalmente diferente daquele que teve em toda a sua vida e é alvo de várias práticas de preparação como por exemplo o embolamento que consiste na serração da ponta dos seus cornos.
Por vezes começam aqui a prática de actos para a sua debilitação para que não se apresente na sua máxima força e se consiga uma lide mais controlada e sem danos para os homens e cavalos.
Faltou público na Homenagem a ZoioO Touro entra na praça e imediatamente demonstra a sua bravura e agressividade percorrendo o recinto e investindo contra os homens de capa que o provocam.

Olha para a platéia como que desafiando toda aquela multidão a enfrentá-lo.
O Touro entra desorientado na praça, ainda confuso pelo facto de há poucas horas estar a viver livre num prado rodeado dos seus.
Encontra-se agora só, em local incerto, foi sujeito a práticas que correspondem a agressões físicas e psicológicas. 
Por instinto procura a fuga e estuda o espaço para verificar se esta é possível.
TOURADA EM MADRID – CORAGEM OU COVARDIA?O picador faz o seu trabalho com mestria de preparação da lide.

O Touro demonstra a sua bravura e força investido de encontro ao Cavalo praticamente sem sentir os golpes infligidos.
Um Cavalo vendado e com tampões nos ouvidos para que não perceba o que está a acontecer e não reaja por instinto. A malha que o envolve protege-o de perfurações contra cornos embulados mas não o protege de lesões causadas pelo impacto que podem ser fatais. Para esta tarefa são escolhidos cavalos considerados menos valiosos, não treinados, pelo que caso ocorra uma morte ou lesão grave não é considerado um grande prejuízo.
O Touro por sua vez reaje às provocações da forma que lhe resta depois de interiorizado que não existe fuga possível.
As feridas causadas garantem que fica pelo menos incapacitado de erguer a cabeça e que terá hemorragias contínuas que o farão perder força e discernimento ao longo da lide.
Portalegre, 9 de Julho - Mouras versus CaetanosSeguem-se as lides a Cavalo. O Touro investe tentando derrubar cavalo e cavaleiro.

Demonstra a sua valentia e bravura não desistindo da perseguição e aceitando os castigos dos arpões das bandarilhas sem virar a cara à luta.
O Touro já debilitado defende-se como pode das agressões causadas pelos cavaleiros. Um olhar atento conseguirá verificar que o Touro apenas investe quando o cavaleiro o ataca, investindo o Cavalo contra si para cravar as bandarilhas.
É até comum que após cravar a bandarilha o cavaleiro se dê ao luxo de colocar o seu cavalo a efectuar manobras artísticas como trotes elegantes ou rodopios.
Se o Touro fosse verdadeiramente agressivo e não estivesse numa postura de defesa não iniciaria uma perseguição contínua ao cavalo até conseguir o choque ou que um dos dois se fatigasse?
Não haveria espaço e tempo para movimentos artísticos se estivesse uma fera agressiva na praça.
TOURADA EM MADRID – CORAGEM OU COVARDIA?O toureio a pé é um desafio cara-a-cara em que a inteligência e coragem do homem tenta exercer o seu domínio sobre a natureza do Touro.

Valroiza-se a mestria do homem que consegue ler o Touro e levá-lo a investir e movimentar-se como se estivessem sincronizados numa coreografia previamente ensaiada.
O Touro neste momento já está desgastado pelas lides a cavalo e pela grande quantidade de sangue que perdeu durante as partes anteriores da Tourada.
Inclusive estará limitado fisicamente em termos de locomoção tendo os ligamentos, que lhe permitiam manobrar a cabeça sem limitações, dilacerados logo na fase do picadeiro.
O Toureiro beneficia de anos de aprendizagem com bezerros, vacas, Touros mansos, e da experiência acumulada de lidar com Touros em touradas.
O Touro por sua vez está pela primeira vez naquela situação, sujeito aquele tipo de ataques, não tendo qualquer preparação para lidar com ela.
Morais (Bragança) Forcados de Arronches vencem prémio para a 
melhor pega Os forcados. Únicos no mundo da Tauromaquia em todo o mundo.

Um grupo de amadores que enfrenta o Touro numa demonstração de um misto de força, coragem e saber.

São a verdadeira extensão do povo que nas bancadas sente nas entranhas o impacto do Touro no corpo durante a pega de caras.
Talvez a parte mais justa da tourada em que não é infligida dôr física adicional ao Touro.
Pena que só ocorra na parte final em que o Touro já está repleto de lesões externas e internas e completamente fatigado.
Apesar de ainda reprovável do ponto de vista ético, já que continua a usar-se um animal para um espectáculo, talvez se devesse considerar a actuação de forcados em Touros que não tenham sido alvo dos picadores, cavaleiros, e toureio a pé.
Seria a verdadeira demonstração de coragem e força.
Touro salta 
para bancada e fere 40 pessoas em EspanhaUm Touro demonstra a sua bravura, ferocidade e agressividade saltando as barreiras protectoras e investindo aleatoriamente por entre a plateia.Os chamados Touros voadores mais não são animais que atingem um nível de stress tão elevado que se transcendem e conseguem o seu objectivo principal, normalmente impossível, a fuga.
O Touro salta a bancada para fugir do que se passa na arena e não para investir na platéia. A sua fisionomia não está preparada para o subir e descer de escadas pelo que a sua locomoção trapalhona fere mais pessoas por atropelamento e quedas do que por cornadas.
Touradas O Touro sempre morre e é conduzido para matadouros onde será convertido em produtos alimentares.

Teve a sua oportunidade para indulto e despediu-se em exaltação e glória.

Esta vida é preferível à de uma vida numa unidade de exploração intensiva para fins alimentares.
Antes da sua morte o Touro é submetido a actos atrozes para gáudio e divertimento de humanos que não se dão ao trabalho de conhecer e compreender esta espécie animal.
O facto de o destino certo ser a morte não justifica que o processo para lhe chegar seja um suplício infernal.
CortesiasOs artistas tauromáquicos. Gente respeitada e respeitadora.

Arriscam a vida num espectáculo de enorme beleza para gáudio dos aficionados.

Merecedores de admiração pela sua coragem e mestria na arte de lidar com Touros.

Profundos conhecedores e defensores dos Touros e da Festa Brava.
Os agentes da indústria Tauromáquica exploram comerciamente um espectáculo que assenta no sofrimento de animais.
Vivem numa realidade completamente desajustada relativamente aos dias de hoje.
Beneficiam de um estranho status e são protegidos por lobbies que apesar da grande influência representam uma pequena parte dos Portugueses.
Como amantes dos Touros deveriam dá-lo a conhecer ao público tal como ele é e não deturpar a imagem pública de uma espécie para que seja aceitável explorá-la na Tauromaquia.
Deveriam reconhecer os estudos científicos que demonstram que o Touro é um animal senciente que sente dor física e tem estados emocionais e comportamentais que podem levar ao sofrimento psíquico.
Campo Pequeno reabre a 7 de MaioOs aficionados.

É por eles que existe a Festa Brava.

Os verdadeiros amantes de um espectáculo único e cultural.

Boa gente ciente do valor da tourada para a cultura Portuguesa e para a defesa do Touro e do Cavalo Lusitano.
Muitos dos aficionados desconhecem completamente o que é e como vive um Touro. Acreditam piamente que o Touro não sente dor nem desespero e sente-se confortável ao ser toureado. 
Os que não têm falta de informação poderão no mínimo ser chamados de sádicos pois retiram prazer de actos de tortura e mutilação sobre um animal.
Portugueses manifestam-se em Lisboa contra as touradasCambada de gente pseudo-intelectual que quer acabar com uma tradição secular.

Terroristas que não têm noção da dimensão dos seus actos que atropelam direitos de liberdade de expressão, colocam em perigo o sustento económico de numerosas famílias e podem levar o Touro à extinção.

Podem fazer barulho onde e quando quiserem pois os apoiantes da Festa Brava são muitos mais, têm a razão do seu lado e darão a cara sempre que fôr preciso.
Os activistas da luta contra as touradas são pessoas como as outras que simplesmente dão mais valor a certos valores éticos e morais relacionados com os direitos e o bem-estar dos animais.
A tourada é considerada um divertimento, um espectáculo, e assenta no infligir de sofrimento físico e psíquico a uma espécie animal.  
Estamos no século XXI e não na época medieval. Sabemos hoje em detalhe que o Touro sofre durante a tourada.É visível que a Tourada assenta em actos violentos para com um animal, tolerar a tourada é tolerar a violência e o  derramar de sangue por entretenimento. O Touro não teve escolha. Está ali obrigado.