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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Tourada, uma tradição sem futuro


Quem vendeu (e quem comprou) a mentira de que os animais não sofrem e de que não são possuidores de sentimentos, cometeu e disse uma mentira colossal e nada inteligente.

E se agora alguém nos agarrasse e privasse da nossa liberdade? E se alguém se apoderasse da nossa vida, como se faz a um mero objecto pessoal, e nos torturasse? E se alguém nos levasse para um ambiente estranho e nos humilhasse, tratando-nos como um corpo sem alma? E se alguém nos matasse, a troco de umas meras palmas, desprovidas de qualquer sentimento de compaixão e de piedade? E se nos fizessem isto tudo em nome de uma tradição sanguinária e sem escrúpulos, cujo nome é conhecido por tourada? Tenho mais uma pergunta: gostariam de estar nesta situação? Eu respondo: não!

E os touros? Gostariam de estar nesta situação, ou será que são animais que retiram prazer da dor e, como tal, são sadomasoquistas? Eu volto a responder: não! Pois bem, é deste modo que eu classifico as touradas: uma tradição violenta, medieval e completamente desajustada da “suposta” evolução do homem e das sociedades.

Se nós, humanos, seres sencientes, não somos (não somos, não devemos, não podemos…) expostos a actos violentos para fins de lazer, porque é que os outros animais, também eles sencientes, podem estar sujeitos a barbaridades destas? Quem vendeu (e quem comprou) a grande mentira de que os animais não sofrem e de que não são possuidores de sentimentos, cometeu e disse uma mentira colossal e nada inteligente.

Apesar de não ser necessário, realizaram-se inúmeras investigações científicas para mostrar àqueles que têm um campo de visão estreito que, de facto, os animais não humanos (neste caso, os touros) são sensíveis à dor, têm sentimentos e, como tal, não devem ser usados e abusados com o intuito de alimentar a maldade interminável de alguns seres humanos.

Muitas vezes, nós, os defensores da abolição das touradas (em Portugal e no resto do mundo), somos acusados de sermos extremistas. Pois bem, para mim, extremismo é defender um “espectáculo” que junta e atrai pessoas para assistir à morte e humilhação pública de um animal, numa “luta” desigual e cobarde.

E o que dizer de um país que subsidia uma actividade que viola o direito dos animais? Portugal tem centenas de milhares de desempregados, famílias a passar fome, idosos a morrer sozinhos em casa, crianças sem material escolar, artistas (artistas a sério, daqueles que conseguem emocionar as pessoas sem terem de recorrer a uma bandarilha) que não têm trabalho... Torturar um animal é mais importante que tudo isto? Felizmente, cada vez há mais pessoas activas e cientes da decadência e obscuridade desta prática selvagem, ao mesmo tempo que as praças de touros vão estando cada vez mais vazias.

É tempo de acabar com este atraso cultural e deixar esta tradição viver apenas nos livros de História. Chega de vitimar touros, cavalos e pessoas em nome de uma prática sem defesa. É hora de darmos as mãos e liquidar toda esta violência gratuita (contra um ser que apenas se limitou a nascer), promovendo uma atitude de respeito pelos outros seres vivos que partilham o universo connosco. Juntos, chegaremos à abolição!

in  p3.publico

quarta-feira, 25 de julho de 2012

A tourada vista por dentro...


O jornalista declara desde já – correndo o risco de ganhar inimigos de ambos os lados – que não é a favor nem contra as touradas. Declara-se ainda um leigo em matéria tauromáquica e por isso pediu ao empresário Paulo Pessoa de Carvalho que o sentasse ao lado de um aficionado para que este lhe desse umas dicas durante a corrida.
A crónica que se segue tem, pois, a visão e as explicações de Francisco Borges, 51 anos, ex-forcado do Grupo de Montemor, onde fez 85 pegas de caras e três de cernelha. Este bancário de profissão assiste a cerca de 30 corridas por ano e é uma figura bastante conhecida no meio tauromáquico.

São 21h45, a Praça de Touros da cidade está à pinha e cumprido o ritual de cortesia, irrompe pela arena o primeiro toiro da noite. São 510 quilos de músculos e nervo que em breve levam uma primeira estocada do cavaleiro António Ribeiro Telles que lhe desfere, certeiro, um ferro comprido. O bicho reage e persegue o cavalo, o que, para Francisco Borges, revela que o toiro é bravo porque não se intimidou com a dor e insiste em atacar o cavalo.
Segue-se um primeiro ferro curto que arranca aplausos da multidão, seguindo-se mais três até ao final da lide.

Uma lide a cavalo dura dez minutos e o cavaleiro pode desferir as farpas que quiser, mas a partir do quarto ferro curto é de bom tom pedir autorização ao director da corrida para poder continuar.
O director de hoje é Nuno Nery. Ele é a autoridade máxima dentro da praça, com poder para interromper ou cancelar a corrida, para mandar sair quem se porta mal e até para dar ordem de detenção, que deverá ser cumprida por um polícia.

Eis uma coisa curiosa do mundo da tauromaquia. O director de uma tourada é o representante do Estado, através da Secretaria de Estado da Cultura.
António Ribeiro Telles fez uma boa lide. É certo que o toiro também ajudou – era bravo e previsível. Agora o cornetim anuncia a pega de caras pelo Grupo de Forcados de Montemor. Francisco Borges benze-se discretamente, quase por instinto. Afinal foram 14 anos naquelas andanças e ainda hoje reconhece que sente um pico de adrenalina quando vê uma pega. Mais ainda se esta for do seu grupo de Montemor, o segundo mais antigo do país, fundado em 1939 (o primeiro foi o de Santarém).

Os rapazes saltam para a arena, posicionam-se e o forcado Filipe Mendes desafia o toiro, que não tarda em investir. A pega corre bem, muito por mérito deste jovem que soube manter-se agarrado ao toiro porque este fugiu ao grupo e tiveram que correr para o ajudar.
Segue-se Vítor Ribeiro, o segundo cavaleiro da noite, que observa, atento, o comportamento do toiro diante dos peões da brega (também designados bandarilheiros ou subalternos). Em breve desfere o primeiro ferro, destapando no toiro uma bandeira do CDS que ergue ao público, motivando um coro de aplausos. Paulo Portas, que fizera uma entrada discreta nos primeiros minutos da corrida, é o último a deixar de bater palmas.

Francisco Borges explica que as farpas actuais têm um mola que é accionada quando se espeta o toiro e que faz com que esta fique pendurada sob o dorso do animal em vez de se manter espetada. O objectivo é proteger os forcados aquando da pega porque, por mais de uma vez, houve ferimentos graves quando o animal investe e as farpas acertam no rosto do “forcado da cara” (forcado que pega o toiro).

A lide do cavaleiro Vítor Ribeiro está a ser um sucesso, apesar de ter contado com um toiro ainda mais colaborante do que o anterior. Entusiasmado, o público até bate palmas acompanhando o pasodoble, o que motiva o desagrado de quem percebe do assunto. “Vê-se que não é uma corrida de aficionados porque as pessoas batem palmas ao ritmo da música e isso pode distrair o toiro”, diz Francisco Borges. E tem razão. Há aqui dois tipos de público: o da tauromaquia e o do CDS/PP.
A intersecção destes dois grupos é que é grande.
Agora é a vez dos forcados das Caldas. Guilherme Carvalho Pinto dirige-se a Paulo Portas e oferece-lhe a pega, “com uma grande honra porque o senhor é um grande homem que defende a festa brava”. E, claro, novos aplausos.
A primeira pega não correu bem porque o forcado não se agarrou o suficiente. A segunda tentativa também falhou, mas à terceira foi de vez e Guilherme Pinto agarrou-se com genica ao animal enquanto a ajuda (o restante grupo de forcados) o imobilizava.
Às 22h20 solta-se de um lado das bancadas uma enorme faixa da Juventude Popular e ouvem-se vivas à JP. Para quem se tinha esquecido, a corrida de hoje também é política.

O terceiro toiro pesa 500 quilos e entra bem na arena, de forma bravia. Reage bem ao castigo, o mesmo é dizer, ao primeiro ferro, mas vai dar algum trabalho a Pedro Salvador, o cavaleiro que procurará por todos os meios captar a atenção de um animal que está demasiado atento ao que se passa fora da arena e reage a todos os movimentos circundantes. “O toiro não vai ao cavalo”, ouve-se dizer entre os entendidos. Por esse motivo, a dupla cavalo mais cavaleiro tem de se esforçar para lhe conseguir espetar os dois ferros compridos e quatro curtos com que termina a lide.
E segue-se a pega. O forcado de Montemor, Tiago Telles de Carvalho, pegou à primeira e mereceu os aplausos do público.

PAULO PORTAS NA ARENA
A corrida não teve intervalo, mas sim um momento em que o líder do CDS também entrou na arena e foi cumprimentar os artistas (expressão que designa os actores deste espectáculo).

A segunda parte da corrida – com os cavaleiros Brito Pães, Duarte Pinto e Soller Garcia – revelar-se-ia desastrosa para o grupo de forcados das Caldas da Rainha, com dois feridos a serem evacuados da arena. Xavier Ovídeo, que dedicou a pega a Paulo Pessoa de Carvalho, acabaria por se desprender do animal e por ele ser pisado, tendo de ser retirado em maca pelos colegas e pelos bombeiros, enquanto o toiro era mantido a uma distância prudente pelo trabalho dos peões de brega. A pega dos forcados caldenses acabaria por se concretizar com Francisco Rebelo de Andrade.

Seguiu-se o quinto toiro da noite, com 485 quilos, que foi lidado por Duarte Pinto e cuja pega – por coincidência – foi dedicada pelos forcados de Montemor ao próprio Francisco Borges. Modestamente, só nesta altura este aficionado conta que tem dois filhos no grupo de Montemor e que estão ali ambos naquela noite.

A sensação do pai ex-forcado perante os filhos que lhe seguem as pisadas é contraditória: “por um lado não queremos porque sabemos os riscos que se correm, mas por outro é um orgulho porque é uma actividade de grande camaradagem, onde se forma um grupo de amigos capazes de dar a vida uns pelos outros”.

O último toiro da noite, com 536 quilos, revelou-se o menos colaborante de todos. Ficava parado no meio da praça e recusava-se a perseguir o cavaleiro que, apesar de tudo, teve uma boa lide. Entretanto os Forcados Amadores das Caldas da Rainha decidem que este toiro será pegado de cernelha, o que significa fazer entrar os cabrestos (bois mansos que servem de guia aos touros e os encaminham para a saída) na arena para o rodearem e o obrigarem a andar no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Nessa altura, dois únicos forcados devem pegá-lo em simultâneo, um pelos costados e o outro pelo rabo, até o imobilizarem.

José Sousa Dias e Salvador Costa Pereira por duas vezes o tentaram, mas não o conseguiram, até que o primeiro acabou por ser evacuado por, ao estar atento aos movimentos do toiro, não ter reparado num cabresto que chocou contra ele e o pisou.
Os forcados caldenses decidem então realizar uma pega de caras, terminando a noite com muito espectáculo, mas nem sempre fazendo as coisas bem feitas.

Em teoria, os cabrestos deveriam ser retirados da arena e o grupo posicionar-se para pegar o toiro. Mas, algo desesperados por a noite não estar a correr da melhor maneira, os caldenses decidem pegá-lo por entre a confusão dos cabrestos, falhando um primeira tentativa.
Nova tentativa, outra vez improvisada, e Mário Cardeira, que já fora ao chão e tem a cara coberta de sangue, salva a honra do grupo e consegue pegar o maior toiro da noite, sendo bastante ovacionado pela sua coragem.

A corrida chegou ao fim.
Carlos Cipriano
in Gazeta das Caldas

“O CDS defende as touradas”
“O CDS/PP não tem uma posição oficial sobre as touradas. Há muita gente que é contra e muita gente que é a favor. Mas sempre que quiserem atacar as touradas, o CDS defende-as”. A afirmação é de Paulo Portas, no final da corrida, após ter recusado inicialmente prestar declarações, dizendo que “não confundo política com entretenimento”.
C.C.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Porquê Touradas?

O titulo que eu escolhi foi sobre as criticas que têm surgido sobre as touradas ao longo destes últimos anos, mas porquê a tourada?
Existem muitos argumentos a favor das touradas e algumas delas são:

Tudo o que é tradição merece ser preservado, a tourada é tradição, logo, a tourada merece ser preservada.
Se não fossem as Touradas e os seus adeptos, a raça dos Touros Bravos já estava extinta.
Quem não gosta ou não concorda, não veja.
Quem é contra as Touradas devia preocupar-se com outras coisas que também são feitas, nomeadamente o abandono de cães.
Quem diz que é contra as touradas é hipócrita porque muitas vezes maltrata os cães e outros animais.
O touro praticamente não sofre com o que lhe é feito na arena.
Os Touros nascem para serem lidados, são animais agressivos por natureza.
Se quem gosta, respeita a opinião de quem não gosta, porque é que quem é contra não respeita a opinião contrária?
A arte de tourear é tão bonita que seria uma pena perdê-la.
As Touradas enaltecem a nobreza do Touro.

Depois destes argumentos válidos porquê quererem acabar com as touradas?
Se é para salvar os touros, então estão enganados pois se acabarem com as touradas, acabam com a raça dos touros, pois os touros são criados muito bem, são bem alimentados, têm uma vida de luxo que até algumas pessoas não o têm, para depois subirem para a arena.
Se acabarem com as touradas os touros já nem criados são.

Por isso a minha pergunta, Porquê as touradas?
Se depois disto tudo se percebe a importância das touradas.

Fonte

sexta-feira, 23 de março de 2012

A «tradição» das touradas

No 2º volume dos «Cadernos de Lanzarote», José Saramago reproduz um artigo que publicou na revista Cambio 16.
Transcrevo dois trechos:
«O touro entra na praça. Entra sempre, creio. Este veio em alegre correria, como se, vendo aberta uma porta para a luz, para o sol, acreditasse que o devolviam à liberdade. Animal tonto, ingénuo, ignorante também, inocência irremediável, não sabe que não sairá vivo deste anel infernal que aplaudirá, gritará, assobiará durante duas horas, sem descanso. O touro atravessa a correr a praça, olha os “tendidos” sem perceber o que acontece ali, volta para trás, interroga os ares, enfim arranca na direcção de um vulto que lhe acena com um capote, em dois segundos acha-se do outro lado, era uma ilusão, julgava investir contra algo sólido que merecia a sua força, e não era mais do que uma nuvem. Em verdade, que mundo vê o touro?» (…) 
«O touro vai morrer. Dele se espera que tenha força suficiente, brandura, suavidade, para merecer o título de nobre. Que invista com lealdade, que obedeça ao jogo do matador, que renuncie à brutalidade, que saia da vida tão puro como nela entrou, tão puro como viveu, casto de espírito como o está de corpo, pois virgem irá morrer. Terei medo pelo toureiro quando ele se expuser sem defesa diante das armas da besta. Só mais tarde perceberei que o touro, a partir de um certo momento, embora continue vivo, já não existe, entrou num sonho que é só seu, entre a vida e a morte».

Quando José Saramago leu o texto a sua mulher, Pilar, disse
«Não podes compreender…” Tinha razão», diz o escritor, «Não compreendo, não posso».

É sempre o que os defensores das touradas, quando vêem que os seus «argumentos» não são aceites, dizem. Quem acha que as touradas são um espectáculo degradante e advoga a sua proibição imediata «não compreende». Porque, dão a entender, para compreender uma coisa tão poética, tão tradicional, é preciso ter uma sensibilidade especial.
Pergunto – o que há para compreender? Um negócio onde se cruzam ganadeiros, apoderados, toureiros, empresários… pega num animal, confina-o num «anel infernal», e tortura-o até à morte. O que há para perceber neste fenómeno que nada tem a ver com património cultural, nem com tradição e muito menos com poesia – que tem a ver, sim, com os obscuros corredores da mente humana onde se oculta um atávico prazer em fazer sofrer outros seres como catarse para os sofrimentos pessoais.

Os aficionados desenvolvem uma teoria de contornos iniciáticos: quem não entende a magia da corrida não tem o direito de a criticar. Ou seja, para poder contestar as touradas é preciso gostar delas, estar por dentro do mistério da corrida, sentir a poesia de uma tarde de touros… Obscuras banalidades deste tipo, mas nem só um argumento sólido e aceitável.

Nos tempos de Roma usavam-se pessoas, embora já houvesse quem protestasse. O que responderiam os defensores do espectáculo – que era uma tradição e que os escravos nasceram para morrer. E haveria também apreciações sobre a beleza poética de ver animais selvagens e famintos despedaçar seres humanos, sobre a «nobreza» com que uns morriam sem se defender e a falta de aprumo com que outros tentavam vender cara a vida. Nem sei porque é que os defensores das touradas não incorporam o circo de Roma na sua tradição.
A Antiguidade Clássica daria um toque de erudição à «Fiesta». Assim só têm o Hemingway para dourar o seu historial.

Falando da tradição taurina em Portugal, ela é tão forte e tão antiga que a própria tourada à portuguesa é acompanhada por "pasodobles". Os aplausos do público exprimem-se em "olés" e a terminologia taurina é toda em castelhano.
Tradição portuguesa? Sempre que se fala na história das touradas, lá vem o conto de Rebelo da Silva, «A última corrida de touros em Salvaterra». Só este conto é metade da tradição, a outra metade é espanholice pura.

Vem isto a propósito da discussão acesa que vai pelo Parlamento catalão sobre a proibição, ou não, das touradas na Catalunha. Perante a Comissão parlamentar do Meio Ambiente, 14 peritos em diversas áreas esgrimiram ontem argumentos a favor e contra a tauromaquia. Está em causa a anunciada proibição das corridas de touros na comunidade. Esta medida é apoiada por uma Iniciativa Legislativa Popular que reuniu 180 mil assinaturas.
Os pro-taurinos defenderam a bravura do touro e a sua condição de animal nascido para morrer lutando, bem como a sua resistência ao sofrimento.
Os anti-taurinos descreveram em pormenor o sofrimento do animal. Passando ao plano cultural, os defensores falaram nos valores da «fiesta», a emoção, a comunhão na praça, a catarse colectiva da multidão.
Os anti insistiram na crueldade da tortura e da morte do animal, da psicótica aberração de extrair prazer dessa barbaridade. Os pró lamentaram que os aficionados catalães tenham de viver na clandestinidade, embora afirmem que o público é apaixonado pelo espectáculo taurino e que são os políticos quem acirra o povo contra a tradição. Num terceiro plano, o da identidade, todos os deputados, da direita à esquerda, deixaram claro que a abolição da tauromaquia na Catalunha nada tem a ver com a identidade nacional.

Um toureiro e ganadeiro de Madrid, disse que, ao fim e ao cabo, o protagonista do debate é o touro. E com a autoridade de quem está por dentro, falou em nome dos interesses do animal: «É o animal mais formoso do mundo e o melhor tratado. Se fecharem as praças, extinguir-se-á». E depois, derivou para a poesia barata «É um espectáculo, um sentimento, a paixão da vida e da morte, do respeito e da entrega». No entanto, não respondeu às perguntas dos deputados, pois eram formuladas em catalão.
Os pró falaram de sofrimento, escudando-se na capacidade do touro para sofrer. A escritora Natalia Molero interveio, aludindo à «capacidade que o touro tem de libertar meta-endorfinas durante a lide para anestesiar a dor».
Os anti contra-atacaram com força. Desmontaram um a um os argumentos dos defensores.
Jorge Wagensberg, um cientista, descreveu todo o arsenal utilizado para matar o touro, descreveu os instrumentos, da bandarilha ao estoque, tudo bem afiado e reluzente e disse. «Isto dói? Claro que dói!”.
O etólogo Jordi Casamitjana, perito em sofrimento animal, utilizou elementos que permitem avaliar o sofrimento do touro, incluindo fotografias, e concluiu: «De um ponto de vista ecológico e zoológico, o touro de lide sofre individual e socialmente, física e psiquicamente».
O meu camarada de lides (editoriais), Jesús Mosterín, interveio, na qualidade de filósofo, com ironia cáustica: «Escandalizamo-nos porque em África se corta o clítoris às mulheres e noutros países causa escândalo que se continue fazendo um espectáculo público do sofrimento dos animais». E prosseguiu: «É verdade que as corridas de touros são tradicionais», concluindo sob os protestos dos deputados pro-taurinos: «Maltratar as mulheres também é uma tradição e, apesar disso, está a ser combatida».
Josep María Terricabras, outro filósofo, de forma mais suave, percorreu a lista de argumentos básicos dos defensores da «fiesta», para chegar a uma conclusão: «Aos partidários da fiesta falta um argumento ético fundamental. Fazer sofrer um animal por prazer é totalmente reprovável. Os touros são maltratados, como antes o foram as mulheres e os escravos». A sessão prosseguirá hoje com depoimentos de outros 13 peritos em diversas áreas.

Apenas quero levantar uma questão – quando é que em Portugal discutimos este assunto? A cobardia dos sucessivos governos tem permitido, mesmo no pós-25 de Abril, que vergonhas como as de Barrancos continuem.
Invoca-se ali a tradição. Qual tradição? Um espectáculo que viola a lei e todas as regras da segurança, para já não falar nos princípios humanitários, iniciado em 1928 já é uma tradição? Mas mesmo que fosse. Como disse Mosterín, há tradições inaceitáveis e que têm sido combatidas com êxito. A prostituição, a pena de morte, a escravatura, duraram milénios. Não é motivo para que não tenham sido e continuem a ser combatidos.
Porém, quando vemos o Bloco de Esquerda, sempre tão preocupado com os problemas ecológicos e com os direitos dos animais, a aceitar uma trânsfuga do Partido Comunista numa autarquia ribatejana (Salvaterra de Magos, a do conto de Rebelo da Silva), defendendo a senhora abertamente os touros de morte, a esperança de que esta chaga cultural seja banida esmorece. A avidez pelos votos, submerge convicções e programas.

A tourada em Portugal está longe de ter as raízes que tem no estado vizinho, onde move interesses de grande monta. Quando é que em Portugal nos ocupamos da discussão a sério desta «tradição» tão nacional que até só se exprime em castelhano?
Em 1836, o ministro do Reino Passos Manuel promulgou um decreto proibindo as touradas (Em Portugal, em 1779, as touradas foram proibidas no tempo do Marquês de Pombal, após uma corrida de touros realizada em Salvaterra de Magos em que faleceu na arena o Conde dos Arcos, grande figura nobiliárquica estimada pelo monarca D. José I. Voltaram a ser permitidas anos mais tarde, mas sendo proibidos os chamados touros de morte, onde o touro não pode ser morto em praça pública):
Considerando que as corridas de touros são um divertimento bárbaro e impróprio de Nações civilizadas, bem assim que semelhantes espectáculos servem unicamente para habituar os homens ao crime e à ferocidade, e desejando eu remover todas as causas que possam impedir ou retardar o aperfeiçoamento moral da Nação Portuguesa, hei por bem decretar que de hora em diante fiquem proibidas em todo o Reino as corridas de touros.” 
Porém as «razões» do costume prevaleceram e nove meses depois as corridas regressaram.

A maioria municipal socialista de Viana do Castelo, em 27 de Fevereiro de 2009, decidiu não permitir a realização de qualquer espectáculo tauromáquico no espaço público ou privado do município, sempre que ele dependa de qualquer autorização a conceder pela autarquia. Viana do Castelo (com maioria socialista) antecipou-se à Catalunha.
Portugal, com um governo socialista, não deveria, pelo menos, encetar o debate sobre o tema? Quando é que se reconhecerá aquilo que há quase dois séculos já era óbvio para algumas pessoas – as touradas são um divertimento bárbaro e impróprio de nações civilizadas?







por Carlos Loures

terça-feira, 10 de junho de 2008

"Entre O Homem E O Touro"

NOTA DE IMPRENSA
Gabinete do Dep. José RIBEIRO E CASTRO
Delegação do CDS/Partido Popular no Parlamento Europeu

Críticas de Ribeiro e Castro por ocasião da Exposição "Entre o Homem e o Touro"

"É fundamental reagir. Restringir ou proibir a transmissão televisiva de touradas é atentado à cultura e à liberdade"

"A imposição judicial de restringir a transmissão de touradas na RTP é um sinal lamentável de activismo judiciário, uma decisão irresponsável que insulta gratuitamente todo o mundo taurino e que ofende uma componente importante da cultura portuguesa e de outros povos" - declarou o eurodeputado José Ribeiro e Castro, ontem ao fim do dia, em reacção à notícia da decisão tomada pela 12.ª Vara Cível de Lisboa.

Recorde-se que a juíza da 12.ª Vara Cível de Lisboa deferiu uma providência cautelar interposta pela Associação Animal de que resulta a proibição da transmissão em directo da 44.ª Corrida TV, que se realiza em Santarém às 17h00 do próximo domingo. Segundo o tribunal, o canal televisivo é obrigado a transmitir a corrida de touros apenas entre as 22H30 e as seis da manhã e com um identificativo visual apropriado - a "bolinha vermelha".

"Os tribunais não se fizeram para militâncias ideológicas" - prosseguiu Ribeiro e Castro. "Este tipo de pressões para restringir ou proibir a transmissão televisiva de touradas é um claro atentado à cultura, à inteligência e à liberdade.".

O deputado democrata-cristão acabava de participar na inauguração da exposição "Entre o Homem e o Touro" no Parlamento Europeu, em Bruxelas, promovida pela "Mesa del Toro" - confederação de 15 associações de 8 sectores tauromáquicos espanhóis - e pelo deputado do Partido Popular espanhol Luís de Grandes Pascual.

Este evento juntou centenas de participantes, entre os quais quatro ex-presidentes do Parlamento Europeu, o Presidente do Partido Popular Europeu, deputados ao Parlamento Europeu de diversos partidos e nacionalidades, ganaderos como Eduardo Miúra e algumas das maiores figuras do toureio como o espanhol Enrique Ponce, o português Victor Mendes, o colombiano César Rincón e o francês Sebastián Castella.

Na ocasião, Ribeiro e Castro cumprimentou os organizadores pela iniciativa e fez votos para que, num futuro próximo, a especificidade da Corrida à Portuguesa possa merecer divulgação em moldes idênticos.

"É fundamental que o mundo taurino se organize e reaja contra este gravíssimo sinal do tribunal de Lisboa. É um apelo que deixo a ganaderos, toureiros, forcados, aficionados, gentes das artes, cultura e comunicação, dirigentes de organizações sociais, profissionais e políticas" - alertou José Ribeiro e Castro.

E acrescentou "A tauromaquia é parte integrante do nosso património artístico e cultural. Constitui um veículo privilegiado de transmissão de valores e de saberes que não pode nem deve ser desvalorizado. Os crescentes ataques de que o Mundo Rural e as suas tradições vêm sendo alvo deveriam motivar uma reacção firme e coordenada por parte das suas principais associações."

"Assistimos presentemente a uma clara investida contra as corridas de touros assente em premissas ideológicas. O que aí se revela não é mais do que uma manifestação de totalitarismo cultural a que importa resistir e responder." - continuou o eurodeputado. "O evento organizado pela Mesa del Toro é um exemplo que temos que seguir também em Portugal, onde este vírus totalitário também já está a chegar e, pelos vistos, ao sítio que mais devia defender a liberdade e os direitos fundamentais: os tribunais."

Esta semana realizaram-se também em Bruxelas, no Parlamento Europeu, iniciativas visando impor a proibição das corridas de touros. A campanha anti-taurina chama-se "For a bullfighting-free Europe" (Por uma Europa sem corridas).

Comentando estas últimas iniciativas, o eurodeputado democrata-cristão declarou: "Só confirma o que acabei de dizer e demonstra o momento de perigo em que estamos. São forças organizadas e muito agressivas, a que importa saber responder. No ano que a União Europeia consagrou como o Ano do Diálogo Intercultural, é caricato e extremamente grave assistir a tentativas tão sectárias de impor uma cultura uniforme."

Para mais informações:
Gabinete do Deputado José RIBEIRO E CASTRO
Tel.: +32 (2) 2847783
Fax: +32 (2) 2849783
Email: jose.ribeiroecastro-assistant@europarl.europa.eu