quinta-feira, 21 de junho de 2012

A Ferra


A ferra faz parte do processo de identificação dos animais. A tradição em Portugal ordena que os equinos e os bovinos sejam ferrados a fogo.

No chamado “Gado Bravo de Lide”, a ferra é usualmente feita da seguinte forma:

1.º Imobilização – duas formas distintas, mas igualmente stressantes

Alguns rapazes agarram o bezerro ou garraio pelas orelhas ou pelas ilhargas e derrubam-no. Caído no chão, são-lhe amarradas as patas;
O animal é imobilizado numa jaula, vulgarmente designada por caixão da ferra, sendo a sua cabeça presa numa abertura da portinhola. Fica com o lado esquerdo do corpo encostado a uma placa, preso por duas cordas ou por correntes amarradas no tronco, sendo ainda agarrado pelo rabo.

2.º Um Extra - Cortes nas Orelhas

Aproveitando a imobilização do animal, não é raro que se façam vários cortes nas orelhas, com uma faca afiada, com o intuito de se deixarem marcas diferentes de ganadaria para ganadaria.

3.º Marcação com Ferros em Brasa

São feitas as seguintes marcações, todas elas do lado direito: O ferro da ganadaria é marcado na nádega como símbolo da casa onde nasceu o bovino e tem as iniciais do ganadeiro ou o brasão de família. No dorso, é-lhe gravado o número de registo. O último algarismo do ano em que nasceu, é ferrado na espádua. No pescoço, é deixada a letra “P” com o ferro da Associação Portuguesa de Touros de Lide.

A ferra faz-se aos animais quando eles ainda são muito jovens, tendo alguns, menos de um ano de idade. A ocasião é aproveitada para separar os machos das fêmeas (igualmente marcadas com ferros em brasa), que não voltarão a pastar juntos. É feita entre Outubro e Março, quase sempre na presença de um número significativo de convidados e em ambiente de festa
http://www.youtube.com/watch?v=WPMjAITr4XI

Identificar os animais pode até ser importante, mas por via de golpes nas orelhas e de marcações com ferros em brasa, é inadmissível. Provocam-se dores insuportáveis e causam-se, muitas vezes, futuras infecções, pois nem sequer é administrada qualquer anestesia ou medicação. O ideal seria a opção pela identificação electrónica, mas esta parece estar fora de questão. Já existe um método considerado “inovador”, à base de azoto líquido, possível de ser utilizado em animais de pêlo escuro, em que pelo menos o processo é feito a frio e talvez um pouco menos doloroso. Este método já está a ser utilizado em alguns países, mas em Portugal a marcação de bovinos com ferros em brasa é (mais) uma tradição que se continua a manter.

Marinhenses Anti-touradas

Era também assim que se marcavam os escravos.
Estas práticas fazem parte de um processo de banalização da violência, abuso de poder e dessensibilização para o sofrimento alheio. Enquanto não as erradicarmos, não poderemos verdadeiramente evoluir.

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