segunda-feira, 14 de maio de 2012

"Problemas ético-morais das actividades tauromáquicas"

Nota:
"A demência é gratuita e está ao alcance de todos. Há quem a use com uma destreza surpreendente, como é o caso de Rute Mourão, em “Problemas ético-morais das actividades tauromáquicas” 

"É certo que aquilo que nos diferencia dos animais é a inteligência e, como tal, agradecia a todos aqueles que humilham e barbarizam a festa brava, compreendam que aquilo que um toiro sente ao ser-lhe cravado um ferro é dor e não sofrimento. O sofrimento pertence à inteligência emocional, inteligência essa que só a nós, ser humanos, foi conferida."

Espantoso, não é?!!!!"

Diremos mais....
Impressionante a INSENSIBILIDADE com que as pessoas usam as palavras!!!!
Querem atirar areia para os olhos de quem?
Dos monstros que, na ignorância de algozes, se acham superiores. E ainda têm a mania que são superiores... em tudo que existe de pior!!!!

por: Rute Mourão (*)
14 Fevereiro 2011

O toiro de lide é uma das minhas paixões. A nobreza, imponência, postura e beleza de um toiro, no campo ou numa praça, cativam-me tal como toda a arte veterinária que lhes é concedida.

Todos estes motivos, tal como os desentendimentos entre a festa brava e a protecção dos animais, contribuíram para a minha vontade de rabiscar este artigo.
Entristece-me a existência de desacordos e acusações entre estas duas associações. Seria de muito bom-tom falar-se daquilo que é do nosso conhecimento. Não é justo nem correcto, afirmar que a tauromaquia é uma “indústria bárbara” sem ter conhecimento algum acerca da origem desta raça, das suas características fisiológicas, das preocupações que ganadeiros e médicos veterinários têm a nível de profilaxia médica e sanitária pois é de extrema importância o aparecimento de qualquer patologia num toiro de lide.
Presumo, que os meus amigos da liga portuguesa dos direitos dos animais pensem “Claro, porque um animal débil não oferece qualquer mais-valia ao criador”. Na verdade, estes animais, bem como todas as espécies pecuárias, têm elevado valor económico pois são criados para fins comerciais e para espectáculos taurinos. Porém, ninguém sabe o orgulho e a alegria que um ganadeiro sente ao ver um toiro da sua ganadaria ser corrido numa praça.
O agradável da festa não é observar um ferro cravado num toiro mas perscrutar aquilo que o distingue dos outros animais, ou seja, os seus atributos físicos e comportamentais que lhe determinam a chamada bravura.
A bravura resulta de uma fisiologia e temperamento particulares que harmoniza acasta, ou seja, o instinto agressivo e a nobreza, isto é, a sua simplicidade. Se não estiver presente uma destas características apresenta-se um animal manso, o que acarreta a impraticabilidade da lide. Isto, para tentar decifrar que sem actividades tauromáquicas esta raça finda.
A moral de uma corrida de toiros resume-se na capacidade intelectual de entender o que é um toiro bravo e que a bravura é cultura portuguesa devendo ser respeitada.
Quando alguém tem a audácia de defender a ideia de que a tauromaquia é uma “actividade violenta e retrógrada”, sinto-me no direito de contestar o que entende acerca do toiro de lide e cultura.
Traduzindo, agora, a finalidade das actividades tauromáquicas, como é o caso das corridas de toiros, quando se declara que devido à realização destas se preserva a espécie, não se afirma de modo algum, que a raça é assegurada ao cravar-se um ferro no lombo do animal. O que se pretende que seja entendido é que uma lide estimula todos os aspectos físicos e comportamentais que distinguem esta raça de qualquer outro bovino.
Este animal não é um ente querido nem um objecto favorito, nem se pode afirmar que é uma espécie exótica, é pura e simplesmente um ser vivo extraordinariamente bravo.
O toiro é um animal "especial", endocrinamente falando, já que possui uma resposta totalmente diferente de todos os outros animais.
Para investigar se a resposta neuroendócrina do toiro de lide seria igual à de outras raças de bovinos ou de gado de características diferentes, realizou-se um estudo neuroendócrino (hipotálamo-hipófise-adrenal), com a finalidade de analisar as principais hormonas reguladoras.
Avaliou-se a fisiologia do stress, no que respeita aos espectáculos taurinos, procedendo-se à quantificação da ACTH (h. hipófisária), Cortisol (produzido nos córtex das glândulas supra-renais) e adrenalina e noradrenalina (h. medulares) durante a lide.
É claro que o toiro está sob stress mas com este estudo foi possível demonstrar que os níveis de ACTH e Cortisol são, significativamente, mais elevados no momento em que o toiro sai à praça, por exemplo, do que durante a lide. Durante a lide há, também, uma menor libertação destes do que durante o transporte.
A concentração de hormonas em novilhos é superior à dos toiros, talvez devido ao novilho ser um animal mais jovem e por isso está menos habituado ao seu maneio. O mesmo acontece quando bovinos jovens entram pela primeira vez numa manga aquando de acções profiláticas.
O mecanismo do stress é comparado à fisiologia do exercício, ou seja, quanto maior a habituação, melhor serão os resultados e menor será o stress. Além de que é óbvio que o toiro passa mais tempo no campo e, por isso, fisiologicamente falando, desenvolve por completo o seu sistema de regulação hormonal.
Para provar que os resultados obtidos em animais lidados eram correctos, realizou-se uma análise a toiros utilizados em corridas de rejoneio, onde não são aplicados tércios de varas, bandarilhas e não se molesta o animal com a muleta. Qual terá sido a surpresa ao comprovar que os níveis de ACTH e Cortisol estavam mais elevados nestas corridas do que naqueles toiros que foram submetidos a uma lide completa.
De acordo com estes resultados podemos afirmar que as corridas de rejoneio são mais stressantes do que as de lide normal, o que reforça mais a hipótese de que a saída para a praça é o momento mais stressante de toda a lide.
Evidentemente que também me preocupa contradizer as atrocidades que se declaram acerca da dor sentida pelo toiro. Acredito que seja desconhecido o facto do toiro de lide ter desenvolvido uma certa resistência à dor mediante o maneio que lhe foi atribuído. Situações como ferras e tentas, estimulam a libertação de endorfinas (neurotransmissores) que bloqueiam a passagem do impulso nervoso e “anestesiam” o animal minimizando-lhe a dor. O mesmo acontece aquando de uma lide a cavalo ou a pé.
Não só se realizou um estudo para a fisiologia do stress deste animal, como também se analisou o limite de dor. Quantificou-se as beta-endorfinas, que são opiáceos endógenos encarregues de bloquear os receptores da dor no local onde esta se produz até ao momento que deixa de ser sentida, como já tinha referido a priori.
Através dos resultados obtidos provou-se que o limite da dor dos toiros é bastante extenso, ou seja, durante a lide, são libertadas grandes quantidades de beta-endorfinas que “anestesiam” este animal.
Arrisco-me a questionar, aos defensores do fim das actividades tauromáquicas, qual a sua opinião acerca de matanças, caça, pesca, aviários… porque qualquer uma destas actividades causa dor aos animais. Será que me vão dizer que não comem carne nem peixe? Provavelmente comerão mas responder-me-iam que um porco ou uma sardinha não são humilhados em público. Um toiro bravo também não. Quem vai a uma praça de toiros ver um espectáculo não vai ridicularizá-lo mas sim aplaudi-lo pelo seu trapio.
O trapio não é mais que um conjunto de atitudes, reacções, aspectos morfológicos e comportamentais desta raça. Assim sendo, afirma-se que um toiro tem trapio quando contém todos os traços físicos imprescindíveis para a lide. Um toureiro executa a sua tarefa de acordo com as particularidades da raça brava, ou seja, actua acompanhando sempre o seu instinto bravio.
Para proferir acerca de actividades tauromáquicas deverá alcançar-se o que é uma corrida de toiros ou uma novilhada e o porquê de determinado animal ser escolhido para ser lidado numa praça. Não é por ser o mais fraco ou o mais desfigurado, mas sim por ser aquele que possui o tal trapio, a tal nobreza, a tal casta…
É ao observar todas estas minuciosidades que eu, aficionada, vibro numa bancada de uma praça de toiros e não por ver ferros cravados no lombo. Para os entendidos na matéria, o toiro bravo não sofre, apenas demonstra a sua audácia.
É por se ignorarem todos estes conceitos que se escrevem frases infelizes e dispensáveis como: “Não me venham com falsos argumentos de que a tourada tem como propósito a preservação da espécie. O touro pediu alguma vez para ser "preservado" com uns ferros no lombo?”.
Como futura profissional na área das ciências veterinárias, sinto-me responsável por salvaguardar esta raça e os espectáculos taurinos, mas também por assegurar o estatuto ético do animal.

O bem-estar do toiro de lide acaba por ser uma actualização das suas potencialidades através de uma actividade. E bem-estar não é ética? A mais que não seja profissional. Médicos Veterinários e Enfermeiros Veterinários que se especializem nesta área, pretendem que o toiro mantenha a sua bravura porque, caso contrário, teremos animais de natureza brava “obrigados” a serem mansos devido à ausência de estímulos.
Desta forma, qualquer toureiro respeita a natureza deste ser vivo desafiando-o, pois é um animal de estímulos.
Um animal de raça brava tem o direito de usufruir de toda a assistência médico-veterinária. É por isto, que existe um conjunto de medidas profiláticas que são aplicadas e médicos veterinários especializados, nesta área, para que se garanta a sanidade destes animais.
É certo que aquilo que nos diferencia dos animais é a inteligência e, como tal, agradecia a todos aqueles que humilham e barbarizam a festa brava, compreendam que aquilo que um toiro sente ao ser-lhe cravado um ferro é dor e não sofrimento. O sofrimento pertence à inteligência emocional, inteligência essa que só a nós, ser humanos, foi conferida.
Estimados defensores do término dos espectáculos taurinos, depreendam que uma ganadaria salvaguarda uma espécie e que sem lide não existe raça brava.


(*)
Rute MourãoEnfermeira Veterinária e colaboradora revista 'Contra Barreira',  artigos de opinião sobre a Tauromaquia.
artigo de opinião in revista 'Contra Barreira' Nº 17 de Novembro 2011

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